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Para Millôr, rir é inevitável


Talvez em minha parte analítica eu possa parecer, porque analiso com precisão, e Shaw tinha isso. Do ponto de vista de vivência, ele era outra coisa. Era um abstêmio sexual, as relações dele com mulheres eram todas de cabeça. Minha grande influência é o Rio de Janeiro.

– Você considera a sua predisposição para o riso uma coisa boa ou maligna?

– Uma coisa inevitável. Qualquer coisa que você me diga, eu já estou descobrindo o lado da sacanagem. Qualquer coisa.

– Você é engraçado por parte de pai ou de mãe?

– Conheci muito pouco meu pai. Conheci mais minha ascendência por parte materna. Minha mãe tinha nove irmãos. Meu pai era espanhol. Aí, quanto ao humor, sendo espanhol, podia vir do lado dele. Do lado de minha mãe, de origem italiana, é tudo gente calma. Minha avó se chamava Conceta. Desse lado, tinha meu primo Fred, que fazia dupla com Carequinha, que era meu primo-irmão. Ele era alfaiate. Foi presidente do sindicato dos alfaiates. Era galã de teatro de revista. No meio daquela zorra toda, de repente havia um quadro dramático. A velha vedete – uma senhora de 30 anos bem vividos – ia descendo uma escada. Descendo... descendo... descendo... Pura metáfora. E aí aparecia o galã, meu primo Fred, com aquele bigodinho da época, e fazia a cena de amor.

– O humor que você faz é de situação ou contra pessoas?

– Antes de mais nada eu sou eclético. Mas o que não faço é qualquer coisa cruel com a pessoa de uma condição mais baixa. Agora, o que fiz com o Sarney, aquilo é cruel, não tem dúvida. O que fiz com o Fernando Henrique, só não é cruel porque ele é dono da palavra, escreve naquele barroco absolutamente incompreensível. O humor invade todas as áreas. Você pode condenar o que é agressivo, violento. Eu nunca fui de humor popular. Mesmo como apreciador. Eu não gostava de chanchada. Agora, curiosamente, comecei a ver as chanchadas do Canal Brasil, e estou adorando Mazzaropi. Ele é o homem do understatement, não é o Oscarito. Hoje, você tem o humor do Casseta, que é um paradoxo, porque é popularesco e ao mesmo tempo feito com uma pompa absoluta. E todos os recursos técnicos. Você tem o cara que está nas ruas e nas praças fazendo papel de estátua. Tudo isso é uma forma de humor. Agora, no meu caso, o que tento evitar é ser intelectual...

– Por falar em intelectual, Bergson e Freud teorizaram sobre o humor e enquadraram o riso e a piada. Eles obraram certo? O que acha do que escreveram?

– Eu li Bergson. Mas acontece que essas pessoas estudam a coisa e pegam um elemento que às vezes é até verdadeiro. Veja o mecanismo mais simples do humor: uma pessoa vai andando, andando, e de repente cai no chão. Ela quebrou a expectativa da caminhada. Esse ridículo é cômico, e se a pessoa é ridícula, fica ainda mais engraçado. Mas o humor nem sempre é isso. Quebrar ao meio um conceito também pode ser engraçado. Quanto mais entranhado esse conceito estiver em maior número de pessoas e ninguém percebeu outra forma de dizer aquilo, a quebra é ainda mais engraçada. Você diz, por exemplo: “livre como um táxi”. Não há nada menos livre. O Bergson tem coisas em que ele se perde. Mas quem se perde mesmo é o Freud. Aquele Der Witz, traduzido por um argentino como Chiste. Ele analisa piada. Olha aqui, eu entendo muito mais de humor que Freud. Já tenho 50 mil piadas, e para cada uma que ele cita teorizando, eu dou 10, na prática, que não se encaixa naquilo. Eu sou um artista gráfico e aprendi que se você quiser gravar alguma espécie de sonho, você quando acorda tem que registrar. E aí você vai se lembrar não é mais do sonho, e sim da memória que tem dele. Se eu chegar, dois dias depois, para o Chico Caruso, que é um artista gráfico, e mandar desenhar o que vi no sonho, ele vai desenhar uma coisa inteiramente diferente.

– Mas, afinal, o homem é um animal triste, um bípede sem penas, ou o animal que ri?

– Está num livro meu. O homem é o animal que ri. A frase está na Bíblia, mas o Carlyle que deu a circulação moderna. E eu concluí a frase: “E é rindo que mostra o animal que é”. A gente não sabe de animais que tenham essa capacidade. A não ser a hiena. Mas ela só ri quando está diante de um monte de m... Humor estranhíssimo, que se resume a isso.

– O humor vem da antiguidade clássica. Em Roma já se dizia “ridendo castigat mores”.

– “É rindo que se castiga os mouros.”


[31/AGO/2003]


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