Tema da nova edição dos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, o escritor diz que não há nada mais sério que fazer rir
Millôr Fernandes tem uma só personalidade e dupla cidadania. Nasceu na Zona Norte do Rio há 79 anos e foi recentemente adotado por Conceição do Mato Dentro, que não é uma senhora caridosa mas cidade de Minas. Geograficamente, um dos maiores municípios do Estado. É o que faz questão de esclarecer - cheio de orgulho bairrista - o lado mineiro de Millôr.
Esta entrevista foi concedida em seu apartamento em Ipanema, onde vive cercado por livros, um computador de estimação (não havia gatos à vista), obras de arte, máquina de café expresso e recordações de familiares e amigos. Entre eles, José Aparecido de Oliveira - seu conterrâneo de Conceição do Mato Dentro -, Nássara e Oscar Niemeyer, um dos gênios produzidos pelo século 20 de acordo com tabela estatística inventada por Millôr.
Ele diz que estudou o assunto e concluiu: de cada 10 mil pessoas nascidas apenas uma é gênio, podendo ser santo. Isto é, para cada Niemeyer ou São Francisco de Assis há 9.999 pessoas que transitam pela Terra numa escala existencial que sobe do imbecil ou mau-caráter completo até a maioria esmagadora dos cidadãos de virtudes comuns.
É fácil conversar com Millôr. Difícil é entrevistá-lo. Praticamente tudo que interessa a seu respeito foi dito na edição especial dos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, em depoimentos de gente como Ariano Suassuna, Jaguar e Alberto Dines. Mas, felizmente, Millôr é um arquipélago, embora deteste as metáforas. E na vastidão oceânica de sua experiência de 64 anos como pensador profissional, há sempre uma ilhazinha onde se pode aportar. Metaforicamente, é claro.
Foi assim que me preparei para conversar com ele sobre o lado sério do humor. Aliás, o único lado existente no humor que, segundo o Sr. Fernandes (evitemos a rima), é seriíssimo. A seu ver, tudo no mundo é engraçado. Até a austeridade da religião.
- Sempre ouvi falar da graça de Deus - afirma, nesta entrevista em que há um pouco de vários pratos (argh! metáfora de novo!) do rico menu de Millôr.
- Humor é coisa séria?
- Eu já disse isso muitas vezes e é minha forma de resumir: humor é a quintessência da seriedade. Quer dizer, quando você já ultrapassou a seriedade você sacaneia a seriedade com humor. Grandes momentos da história da humanidade são humorísticos. Quando Prhoudon disse que toda propriedade é um roubo, ele estava nos gozando. É uma verdade tão intensa, que pareceu boa na época. Isto é humor. Humor não é gracinha. Eu não levo nada a sério. Quem me conhece sabe que não acredito na pompa. Se entro numa igreja, a pessoa sabe que, no mínimo, estou entrando como observador sacana. Mesmo quando não estou entrando como destruidor. A humanidade é ridícula. É uma caricatura. Se você repara, quando nós fazemos uma caricatura, estamos na verdade fazendo um desenho realista. É só olhar em volta. Um Gianechini é coisa rara. Um cara com os dois pés direitinhos, boa altura, a espinha reta. O resto é tudo caricatura.
- A religião é severa com o riso. Deus é sem graça?
- Não acredito em Deus. Agora, fala-se muito da graça de Deus, da graça divina. Fiz um roteiro sobre a inquisição, O judeu, em que um dos itens de condenação era calcado em cima da pergunta: como é que o senhor (o inquirido) ousa falar em céu da boca? A boca tem céu? Com a resposta, a condenação.
- Dois grandes santos, Francisco de Assis e Teresa de Ávila, tiveram senso de humor e sabiam fazer rir. Você acha que a santidade e a sabedoria podem estar próximas do riso?
- Olha, 90% das mulheres são idiotas. Quando digo isso, elas ficam abespinhadas. Mas eu explico: 95% dos homens também são idiotas. No meio disso tudo, há 600 mil pessoas no mundo - eu fiz o cálculo, é mais ou menos uma pessoa em 10 mil - que tiveram a oportunidade de nascer com algum talento e receberam educação e meio para desenvolvê-lo. São pessoas que estão fazendo coisas extraordinárias. Um belíssimo filme, um livro, uma música popular. Como tem também algumas pessoas que têm uma autêntica bondade. O gênio do ser humano é a bondade. E essa bondade não prevê a televisão. Quando chegam à televisão, é porque estão querendo ser os mais humildes do ano. São pessoas que a gente possivelmente não conhece. Quando começam a aparecer na luz da ribalta, estão fazendo concessões à chamada mídia, e já não são tão boas. Mas há pessoas geniais na bondade como há em outros setores, que seriam esses santos que você está dizendo. Eu não conheço. A minha relação com São Francisco é de quando eu era bem moço, e fui sozinho a Assis. Eu andava lá por aquelas ruas e dizia: ''Pô, mas ser santo aqui é muito fácil. Eu queria ver é no meio do tráfego do Rio''.
- Os mineiros são naturalmente bem-humorados e engraçados. Você, que é filho adotivo e cidadão honorário de Conceição do Mato Dentro...
- ...que, a propósito, não é para puxar a brasa para minha sardinha, é um dos maiores municípios de Minas. Geograficamente.
- Pelo humor, você se considera de algum modo ligado a Minas?
- Não, não. Sou visceralmente carioca. E tenho todas as influências naturais da vivência e da literatura que eu li ao longo da vida. Porque se você perguntar se eu tenho influência lá de Swift, eu não tenho influência precisa nenhuma. Talvez o que eu tenha lido mais seja o Bernard Shaw. Mas mesmo assim não tenho influência.