Há dois Los Hermanos dentro do Los Hermanos. O do esguio Marcelo Camelo, com seu vocal suave e cuidadoso. E o de Rodrigo Amarante, que, ao cantar, alterna desespero gutural e um nostálgico peso dramático. Os dois, que são também os guitarristas do grupo, compuseram juntos apenas quatro das 43 músicas dispostas nos três discos da banda, preferindo, sozinhos, decidirem o destino de suas próprias (e distintas) canções.
Somados, no entanto, exalam a energia que fez do Canecão, anteontem, uma apoteose como pouco se vê num combalido rock nacional. Não chega a ser um fenômeno ímpar os 3 mil ingressos esgotados para cada um dos dois dias de show (o segundo foi ontem), mas dá uma boa pista da ânsia de seus fãs, que protagonizaram um espetáculo único ao cantarem quase todas as faixas de Ventura, sério candidato a melhor disco de rock brasileiro do ano.
Enfileiraram uma música atrás da outra, uma mais anti-Anna Júlia do que a anterior, e sequer pensaram em tocar o chiclete que lhes rendeu a venda de 250 mil cópias do primeiro CD, Los Hermanos. Seus séquitos entenderam a mensagem e não pediram o hit.
O despojamento dos Hermanos (que grupo de rock entra no palco e diz boa noite antes de tocar?) quebrou, no bis, mais uma regra: puxaram duas novas músicas, sem mesmo recorrerem a Cara estranho, já nas rádios e concorrendo ao VMB da MTV. Samba a dois e Deixa o verão, uma de Camelo, outra de Amarante, precederam A flor, de Bloco do eu sozinho, o CD anterior. O único dueto dos dois registrado em disco foi também o único do show. Transe e êxtase na platéia.