Cantora evitou ser caloura

- Era uma festa portuguesa com muitas barracas enfeitadas e todos os tipos de pães para vender. Cantava-se fado, mas depois chegaram as baianas com seus acarajés e também os sambistas - historia Vó Maria.

Dessa reminiscência ela pinçou uma das pérolas obscuras de seu repertório, Braço de cera, de Nestor Dias Brandão, lançado na Penha e gravado por Francisco Alves para o carnaval de 1927. Outra preciosidade dos escaninhos de sua memória é um samba de andamento antigo, lento, cadenciado, Meu amor vou lhe deixar, de Orlando Vieira, registrado como Meu amor vou te deixar por Mário Reis, em 1929.

Criada em meio a uma família de músicos (o irmão tocou sax na gafieira Elite, um sobrinho, Bismarck, é profissional do cavaquinho), a recatada Vó Maria não quis passar pelo trampolim dos calouros.

- Minha mãe de criação queria que eu fosse cantar no programa do Ary Barroso. Vai, Maria, você canta bem. Não vou não, o Ary Barroso é um bocadinho aborreci- do, ele vai falar qualquer gracinha e eu vou responder para ele - cortou ela.

Casada, o marido desdenhava: ''Cantar pra quê?''. Foram as netas que tomaram a iniciativa de levar Vó Maria para as rodas de samba do Museu da Imagem e do Som.

- A Marilia Barbosa (então diretora) gostou, disse que eu cantava bem e se ofereceu para produzir meu disco - lembra.

Como o dinheiro demorou a sair, as netas gravaram um ensaio na casa de Marilia e o bisneto veio trazer o CD único na cesta de café da manhã do aniversário dos 90 anos. Enfim, o disco profissional ficou pronto estampando a trajetória de uma vida.

- Como escolhi as músicas? São as que sempre cantava em festinhas ou em casa quando era moça - decreta.

[05/JUL/2003]

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