Humor e audácia

Domenico + 2 se supera em segundo disco, 'Sincerely hot'

Tárik de Souza

Crítico do JB

O trio rotativo Domenico + 2 (sucessor de Moreno + 2 e precursor de Kassin + 2) dá um salto no escuro da vanguarda no segundo disco, Sincerely hot. As desconstruções como o discurso de casal silábico em Comigo superam as canções (nada lineares) da estréia, em Máquina de escrever música (2000), sob o comando de Moreno (filho de Caetano) Veloso. Ex-integrante da banda Mulheres que Dizem Sim, o baterista Domenico Lancellotti (também pintor e desenhista, que já fez capas para Caetano, Jorge Mautner, MV Bill e Titãs) imprime ao disco sob seu comando um clima de economia poética, humor e audácia timbrística, coadjuvado por um elenco populoso de convivas que vêm dos contemporâneos Berna Ceppas, Pedro Sá, Rodrigo Amarante (Los Hermanos), Léo Monteiro (Acabou La Tequila), Bacalhau (Little Quail), Nina Miranda (Smoke City), Thalma de Freitas e David Moraes a Arto Lindsay, Guga Stroeter (Nouvelle Cuisine) e até o Quarteto em Cy. Também o hoje cult Waltel Branco tem sua obra revisitada na faixa Tema da zorra, petardo instrumental para trilheiro algum botar defeito, onde Kassin esparrama-se nos teclados.

O som anos 70 (sintetizador, vocoder, theremim, Rhodes, Cassiotone) também revalorizado fornece o substrato do disco junto com outras formas de utilização da voz. Como no refrão berrado de Você e eu, na fala entrecortada (Hiromi Konishi com Domenico) em Comigo. Ou nos corinhos do Quarteto em Cy em Te convidei pro samba, que conta com o estranhamento de Moreno no ukelele (espécie de cavaquinho que era o xodó de George Harrison) e uma intromissão de gafieira do trombone de Paulo Williams.

Ou ainda na narrativa empostada e hipnótica do professor Caio Miranda numa aula de Laya yoga, sampleada como alicerce para a intrigante Telepata. As cadências do samba e da bossa nova (Tarde de chegada) permeiam Sincerely hot, uma leitura cool e um tanto anárquica da MPB em tempo real.

[16/ABR/2003]

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