O pintor que viu o mundo

CÍCERO DIAS (1907-2003)

Arquivo JB
Cícero Dias

Cícero, que vivia em Paris desde 1937, é autor de obras como 'Eu vi o mundo' e 'Mulher na janela'

Cícero Dias viu o mundo: ele começou no interior de Pernambuco e terminou em Paris. Um dos maiores pintores do país, morreu na manhã de ontem, aos 95 anos, por volta das 9h, em sua casa, na capital francesa, de causa natural. Estava acompanhado de sua mulher Raymonde e da única filha Sylvia.

Há um mês, o artista teve anemia e precisou receber uma transfusão de sangue. Desde então, vinha recebendo cuidados médicos em casa. O enterro será na próxima segunda-feira, no Cemitério de Montparnasse, logo após uma missa, marcada para as 10h30, na Igreja Notre Dame de Grace de Passy.

Moderna sempre foi a melhor maneira de definir a arte de Cícero Dias, artista mutante e, ao mesmo tempo, fiel a si mesmo. Nascido em um engenho chamado Jundiá, no município de Escada, Zona da Mata, em Pernambuco, teve sempre o presente em suas pinturas, fosse nos temas da terra ou na luz dos trópicos.

- Nasci pintor - costumava dizer o pernambucano que, em 1931, irrompeu o cenário artístico nacional com o painel Eu vi o mundo... ele começava no Recife, de tamanho monumental, 12 m x 2 m.

A Guernica brasileira é como muitos críticos ainda se referem à obra de imagens fortes e multiplicidade expressiva.

Foram muitas as fases artísticas de Cícero, começando pelas formas que evocavam o primitivismo. Nos anos 40, pioneiro, introduziu a abstração geométrica no país. Mais tarde, deu lugar em suas telas a uma certa orgia de cores e formas, criando imagens de puro lirismo. Em seguida, começou o seu namoro mais profundo com a geometria, referência que o acompanharia até o fim da vida.

Cícero mudou-se para o Rio em 1920, foi interno do Mosteiro de São Bento e, mais tarde, estudou Arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes. Entre 1925 e 1927, conheceu os modernistas. José Lins do Rego descreveu o tempo em que o pintor viveu no Rio, numa crônica intitulada Cícero Dias em 29, escrita em 1952.

Foi no Rio que o pintor estreou profissionalmente. Em 1928, realizou sua primeira exposição no saguão da Policlínica. A mostra, paralela ao 1º Congresso de Psicanálise da América Latina, reuniu quadros que falavam do inconsciente, de sonhos e de delírios. A participação de Cícero com sua obra incompreendida foi polêmica. Um dos espectadores tentou destruir uma tela com uma navalha. Sem muito sucesso de público, a mostra, porém, foi visitada por diversos modernistas, entre eles Villa-Lobos, o poeta Murilo Mendes, o artista plástico Ismael Nery e o escritor Graça Aranha.

A partir de 1932, Cícero voltou a Pernambuco. Sua permanência no Recife transformou-se em um momento de íntima relação com a sua terra e seu povo. Em busca de material para sua obra Casa grande & senzala, editada em 1933 com desenhos de Cícero, o sociólogo Gilberto Freyre percorreu, junto com o pintor, engenhos e senzalas de todo o Estado, por quase um ano.

Simpatizante do Partido Comunista, Cícero foi perseguido em 1937, quando Getúlio Vargas instalou a ditadura do Estado Novo. Por várias vezes teve seu ateliê no Recife invadido e várias obras destruídas. Neste período, decidiu ir viver em Paris. Ali prosseguiu seu trabalho como pintor, conheceu os grandes artistas e intelectuais, entre eles Pablo Picasso, de quem tornou-se amigo. Em 1943, casou-se com a francesa Raymonde, que conheceu em Paris e com quem tem a filha Sylvia.

Aliás, foi por conta da amizade do pintor pernambucano com o gênio catalão que o público brasileiro pôde apreciar o famoso mural Guernica. Picasso era supersticioso e não queria que sua obra saísse dos Estados Unidos enquanto durasse a ditadura de Franco. Cícero Dias, usando muitos argumentos, entre os quais o de que o Brasil era um país pobre e merecia ter acesso a grandes obras de arte, conseguiu convencer o amigo, e a obra foi mostrada na Bienal de São Paulo, de 1954.

Em Paris, Cícero também teve que superar obstáculos políticos. Durante a Segunda Guerra Mundial, depois que o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha e a Itália, ele foi preso num hotel em Baden-Baden. No grupo, trocado por espiões nazistas que se encontravam presos no Brasil em uma ação diplomática, estava também o escritor Guimarães Rosa. Depois disso, Cícero seguiu para Portugal. Em Lisboa, exilado mais uma vez, continuou lutando pela liberdade de expressão.

Prova disso foi uma missão ousada que marcou para sempre sua vida. Num encontro com intelectuais europeus, recebeu um recado do poeta francês Paul Éluard, que atuava na Resistência e queria que o pintor brasileiro fosse buscar em Paris e fizesse chegar a Londres o poema Liberté para ser divulgado entre as tropas aliadas. Cícero Dias costurou o poema na própria roupa. De volta a Lisboa, o recado de Éluard foi enviado a Londres e, já impresso em milhares de panfletos, distribuído às tropas aliadas no front.

Por essa sua atitude, Cícero Dias acabou virando herói: no dia 27 de maio de 1998, foi condecorado com a Ordem Nacional do Mérito da França, maior honraria concedida pelo Estado francês.

Desde que deixou Pernambuco, Cícero ia anualmente ao Recife rever amigos e, como dizia, ''preservar as raízes''. A última visita foi em fevereiro do ano passado, para a festa de lançamento do livro Cícero Dias - uma vida pela pintura.

Dono de uma rígida rotina de trabalho, Cícero, mesmo depois dos seus 90 anos, não dormia antes das três horas da madrugada, sempre pintando e lendo. Colecionador de suas próprias obras - um conselho que recebeu de Picasso -, guardou os trabalhos mais significativos.

Tanto aqui quanto no exterior, Cícero sempre teve reconhecimento unânime na crítica e no meio artístico. Também foi sempre muito querido. Picasso o considerava ''um poeta que também é pintor''. Oswald de Andrade julgava-o ''o maior pintor brasileiro de todos os tempos''.

- Cícero passeou por todas as fases da arte do século 20. Paris nunca mais será a mesma sem ele - ressalta Jean Boghici, marchand e amigo de longa data.

O Brasil, com certeza, também não.

[29/JAN/2003]

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