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Tatuagem, uma estupidez


Advogado

Não há, em nosso inesgotável vernáculo, adjetivação mais apropriada para aqueles que resolvem exibir no corpo desenhos de toda a sorte, às vezes intricados, gravações na carne que nada traduzem senão uma infeliz criação de momento. De qualquer forma uma manifestação sempre ''brega'' de seus prosélitos.

Arriscando-se com tais intervenções a provocar infecção grave, até fatal, reação certamente mais considerável do que a repulsão social, homens e mulheres entregam seus membros, até seu corpo todo, a esta nova investida da estupidez humana.

Não há razão determinada para esta prática. Não se viu, ainda, diagnóstico psicanalítico, psiquiátrico ou psicológico que se aplique aos autores - ou vítimas? - desse lamentável distúrbio das faculdades mentais que, sabe-se lá, se propõem à procura de algo que nem sabem.

Depoimentos há que demonstram o desejo de uma composição simples, depois outra mais, até que a pobre criatura, sem alguém para adverti-la, deixa-se cobrir por um cipoal de linhas e curvas que terminam por assemelhá-la mais a um monstro pré-diluviano, temível, repugnante, enfim, um adversário da natureza humana.

Há, por certo, os mais comedidos, que se arriscam a tais operações (melhor dizer autoflagelo) com o propósito de persuadir-se, ou a terceiros, de que a concretização do desejo virá adorná-los, embelezá-los ou fazê-los mais atraentes ao nosso olhar.

Nada disso acontece. Primeiro, porque, não constituindo a prática uma unanimidade, senão uma aberração, por isso um ato excepcional, dia haverá em que ninguém mais se arriscará a repetir o ridículo. Em seguida, pelo caráter de perpetuidade da incisão, muitos se contentam com uma primeira experiência.

A sociedade, que, na verdade, repele este assalto à estética, é hipócrita, limitando-se a informar e exibir essa onda, explorando-a com sensacionalismo, quando deveria emitir um juízo de valor sobre esta estupidez que se infiltra principalmente no meio juvenil, que é o alvo mais fácil dessa fantasia que, às custas dos meios de comunicação, está atiçando até adultos a uma aventura de falsa estesia, de mentira.

A opinião pública, se ouvida, podia ser honesta e por isso misericordiosa com os aficcionados dessa prática, não os iludindo quanto ao asco, a aversão mesmo, que os tatuados causam a todos aqueles que não se permitiram juntar-se a esse ainda pequeno clube.

A humanidade é assim, caminha ao sabor de seus impulsos. Então, como tudo que contraria a humana natureza nunca se reconhecerá mais que meras tentativas ou impulsos vãos, a própria natureza irá cobrar tudo que possa representar-lhe um desafio, pois que tudo aquilo que se pretenda incorporar aos nossos caracteres naturais nada mais é que arte de picadeiro.

Estejamos certos de que se faltasse algo à figura do homem, Deus não teria poupado do que fosse mais belo ou encantador, merecendo a criatura, como sempre mereceu, a extrema generosidade de seu criador.

Essa prova não é transcendental. É a lógica que nos guiará pela vida. Ou os simpatizantes da tatuagem se encaixam na definição de Napoleão: os homens são sempre contra a razão quando a razão é contra eles.


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[06/DEZ/2005]


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