'); //-->
![]() |
||
| AJB Online | Área do Leitor | Pesquisa | Classificados |
| |
![]()
''As pessoas parecem autistas na Câmara''
Entrevista: Chico Floresta
Luciana Navarro e Rosane Garcia
A bandeira vermelha do partido terá de dividir espaço com o verde. Se depender do deputado distrital Chico Floresta, o PT vai se dedicar intensamente a projetos ambientais. Essa é a proposta apresentada por ele para justificar a pré-candidatura ao governo do Distrito Federal. Floresta apresentou o nome à lista de pré-candidatos da legenda no dia da posse da nova diretoria, 26 de outubro. Nas eleições de 2002, defendeu a candidatura de Geraldo Magela, mas resolveu concorrer com o correligionário pela cabeça de chapa no partido. Com 46 anos, é vice-presidente da Câmara Legislativa do DF. Compõe a mesa diretora mais heterogênea da Casa ao lado do deputado Fábio Barcellos (PFL) que ocupa a presidência. Como candidato da oposição, Chico faz críticas às políticas habitacionais do governo de Joaquim Roriz (PMDB) e defende desenvolvimento urbano verticalizado em vez dos condomínios populares horizontais construídos por Roriz. Mesmo com o bom posicionamento alcançado pelos aliados de Roriz nas pesquisas de opinião divulgadas recentemente, Floresta mantém o otimismo. Acredita que, com a campanha na rua, a esquerda será capaz de reverter a situação. Quanto à decisão do candidato petista, Floresta defende que seja tomada o mais rápido possível e não teme a disputa interna. Acredita que o partido saberá decidir e apoiar o candidato vencedor das prévias.
– Na verdade nós estamos num processo muito rico agora de discussão dos rumos do nosso mandato, dos rumos do partido. Alguns companheiros, num certo momento imaginavam até em se afastar do PT e isso me levou a fazer reunião com as bases do PT que apóiam nosso mandato. Nesse processo de discussão, colocamos claramente a importância do nosso projeto socioambiental para o Partido dos Trabalhadores. Essa é a nossa bandeira histórica, sempre militei nessa área do meio ambiente e agora queremos que o PT incorpore essa bandeira. Não adiantaria eu ir para outro partido, como o Partido Verde, porque não tem a importância política que o PT tem. Então, consegui convencer todos os nossos companheiros de que o caminho é o PT e para consolidar isso lançamos nossa pré-candidatura.
– O PT vai ter que mudar bastante o seu comportamento político em função dessas circunstâncias. O PT terá que ser absolutamente propositivo. Terá que ter políticas públicas calcadas na realidade. E a realidade que eu quero é a que também integre a questão ambiental. O PT terá que ser afirmativo. Antes pregávamos um processo de construção, com base na antítese. Ou seja, você atacava mais do que propunha. Então, nesta campanha o PT será chamado a mostrar o que pensa e apresentar novidades, a formulação política que tenha rebatimento naquilo que a população espera. É evidente que os adversários do PT vão procurar realçar esse aspecto do escândalo. Que a gente analisando, espremendo a fundo, vê que não tem essa base que se coloca na mídia. Na campanha eleitoral será diferente.
– Se você for computar num projeto global essas baixas são recuperáveis. As pessoas que ficaram no PT vão continuar petistas, vão continuar fazendo a interação popular sem a minha presença, ou sem a presença de Heloisa Helena, ou sem a presença de Cristovam ou sem a presença da Maninha. Acho que em Brasília vamos viver uma polaridade que sempre teve, entre o nível de pensamento do grupo ligado ao Roriz e o nível de pensamento e articulação do grupo ligado ao PT.
– Fui o primeiro a apoiar o Magela na eleição passada. Achava que ele reunia, como de fato demonstrou, as qualidades, naquele momento, para ser o nosso candidato.
– Acho que a realidade é que mudou. O Magela está muito ligado a uma visão ainda sindicalista, uma visão que eu chamo da segunda onda e o PT tem que entrar na terceira onda. O PT tem que inovar, tem que se antenar com uma série de movimentos que existem na cidade, existem no Brasil, e ter alguém que seja capaz de fazer essa interlocução. Não podemos ficar nas reivindicações salariais, sindicais e políticas compensatórias. Temos que buscar outros horizontes para a política que o partido tem que incorporar.
– Na eleição passada também foram cinco. Aparentemente as pessoas analisam essa questão de ter vários candidatos como um problema. Para o PT é o contrário. É é a mágica do seu fortalecimento. Todo mundo coloca seus projetos, sua visão, e aí não fica aquela unanimidade burra. Vai para a base e mostra a sua posição e debate com intensidade. E o resultado todo mundo acata, essa é a diferença.
– Se tiver uma vontade de construção de um programa e esse processo de construção do programa for absolutamente amplo e participativo, envolver as bases do partido, aí criam-se as condições para a escolha de um nome que não seja por uma prévia. Agora, se todo mundo imaginar, como por exemplo, no meu caso, que quer afirmar essa dimensão ambiental como uma novidade, e as pessoas considerarem que isso não é o principal, aí vou para a prévia de qualquer jeito, porque tenho certeza que terá ressonância nas bases do partido. Hoje, temos quase um terço do PT que já apóia nossa candidatura. Então, é um peso considerável que já temos e podemos crescer no debate.
– Fico imaginando como seria a junção do vermelho com o azul, que cor daria. Acho que a verticalização é positiva do ponto de vista do processo político global. No Brasil, temos que fortalecer os partidos políticos. Se o PT em nível nacional se coligar ao PMDB, acredito que aqui em Brasília vamos viver uma situação de polaridade co-partidária. Acho que não vai ter um casamento. Provavelmente o Lula vai ter dois palanques aqui – o do PMDB e o nosso.
Acho que vai haver muita dificuldade de o governador Joaquim Roriz conseguir unificar a sua base numa candidatura única. Acho até que ele não tem ilusão com relação a isso. Acho que todas as medidas dele, se formos analisar a fundo, são para viabilizar a candidatura dele ao Senado. Ele não está visando candidatura nenhuma ao governo. Nessa altura do campeonato, ele dizer que cada um lance quem estiver melhor que depois apóia, é sinal que não tem o controle daquilo que se convencionou chamar base de governo. Se o Arruda [deputado federal José Roberto Arruda] sair candidato pelo PFL, terá que ter o movimento próprio para procurar chegar no segundo turno, independente do que o Roriz pensar. Se ele pautar as ações da sua candidatura pelo que o Roriz pensa, ele não chegará no segundo turno. Então, esse é o cenário. Se a esquerda, conseguir uma unidade, isso permitirá chegar ao segundo turno. E o segundo turno é outra eleição.
– Fui coordenador da campanha do Cristovam, depois fui secretário de do Cristovam. Quando nós começamos a campanha do Cristovam, ele tinha de 2% a 3%. A pesquisa feita neste momento revela um estado de ânimo, um estado de espírito do eleitor. Mas fatores decisivos numa campanha não estão agora. Por exemplo, qual é o programa, qual é o projeto, o que vai fazer? Vai ser a Brasília dos viadutos? O que os rorizistas têm para apresentar de novo? Brasília está sob estresse. Você vê o Lago Oeste, o lixo hospitalar, a saúde, a educação... Está um estresse ambiental. O viaduto mascara, mas não resolve. Quer dizer, é mais uma política de fachada. Qual é o discurso que vem da direita? Isso não está no debate.
– Neste momento não tem o debate. Hoje, quem está no governo se beneficia pelo fato de estar governando. Isso é natural nas pesquisas. Como não tem embate de idéias, aquele que tem mais presença aparece mais na pesquisa e você associa também a uma idéia de governabilidade. Do lado de cá, você tem um conjunto de candidatos, com idéias que estão começando a viscejar. Depois essa árvore vai crescer. Agora, é a nossa hora de plantar a semente. A deles já está plantada, é a árvore.
– No debate interno do partido. Vou dizer que não dá para criar casa popular, como o Roriz está criando, horizontalizando o DF, ocupando tudo que é terreno, atingindo o cerrado, mudando a qualidade climática do DF, ambiental. Temos que verticalizar, que é uma idéia que eu defendo. A questão não é mais lote. A questão agora é verticalizar e assegurar para as pessoas um local digno de moradia, que não é de conflito com o meio ambiente.
– A Câmara parece a Geni do Distrito Federal. Por que ela é a Geni? A Câmara tem 16 deputados governistas. A base governista tem o presidente da Casa, mais três na Mesa Diretora. A líder do governo comanda uma bancada de 16 parlamentares. Por que esses parlamentares não estão se acertando? O governo Roriz já está dando sinais daquele processo comum de todos os governos, de enfraquecimento. Na Câmara Legislativa as pessoas não conseguem ver, mas isso aqui é uma escola de formação rigorosa. Todos os problemas do DF caem dentro da Câmara Legislativa. Então quem está aqui atento acaba entendendo muito bem o DF. E nós temos bancada desde que a Câmara Legislativa é Câmara Legislativa.
– Aí volta aquilo que eu falei. Qual é a crise, na verdade, da Câmara Legislativa? É a crise do governo. É a crise da bancada do governo porque para o governador, com os instrumentos que o governador dispõe, é muito melhor a cada situação você criar uma crise na Câmara do que trazer para o foco o seu governo. Aqui se geram crises artificiais, dentro da própria bancada do governo.
– Neste caso, acho que não, porque há realmente uma relação de separação muito forte dos dois. Há uma dificuldade muito grande. O José Edmar acredita, com muita convicção, de que o Vigão foi responsável por aquela prisão dele. Nesse caso entrou no cenário alguns elementos que não são normais na política.
– É com isso que estamos trabalhando. Esse elemento está presente, mas ainda não está aparente. Essa revolta surda está presente. As pessoas, gente da própria base do governo, não vêm votar. Procuram evitar que projetos do governo sejam aprovados. Então, a Câmara não tem um funcionamento normal. Se a gente for ver a quantidade de projetos aprovados este ano, é mínima, por conta desse espírito que está vigorando. Antigamente era uma bancada absolutamente dócil, vinha aqui e votava tudo. Agora, a cada votação o governo tem que conversar, inclusive com a bancada de oposição.
– O governo parece que está querendo mudar a feição da sua bancada. Tem pessoas que são novas que estão investindo fora da Câmara Legislativa. A bancada está entre dois focos – de um lado o PT e a oposição, que está disputando o voto – e tem ao mesmo tempo candidatos que são fortes, têm máquina de governo e têm o apoio do governador. Então, está desesperada. Existe um fenômeno que estou chamando de absenteísmo. As pessoas estão ausentes, parecem autistas na Câmara. Não vêm aqui. Vêm aqui, assinam um papel e vão embora. Por que? Porque tem que correr atrás de voto, tem que descobrir alguma maneira de sobreviver. Então isso está criando uma instabilidade.
– Exatamente. Aí tem também os interesses do governo, de candidatos a governador, que cada um tem a sua bancada. Quanto mais gente tiver na bancada do pré-candidato a governador, na hora da decisão política vai ser importante. Então, começa a criar conflito. Na mudança de partido, todo mundo percebeu. O Arruda foi e voltou, o Paulo Octávio, e tal. Esse cenário é um cenário em evolução.
– Não tem blindagem sem fissura, não existe aço perfeito. Então, na medida em que a CPI vai avançando, vai descobrindo mecanismos do governo, você vai começando a apontar a outra ... do governo e do governador. Então na medida que a CPI for avançando e for chegando a conclusões, o resultado final dela vai, de qualquer maneira, afetar o governo.
– Claro.
[07/NOV/2005]
|
|
||||||||
|
|