E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas

Uma nova velha ordem


José Flávio Sombra Saraiva*

Uma nova velha ordem internacional se iniciou nas primeiras semanas de novembro de 2004. Dois fatos políticos se alinham no movimento trágico da nau que navega por antigos mares, sem destino, imaginando que seus capitães carregam bússola segura. O problema reside nas conseqüências do naufrágio que se anuncia, ante a incompetência política dos líderes e a indiferença impotente de parte da humanidade.

O primeiro desses fatos emerge da eleição presidencial, acompanhada em escala planetária, assistida por muitos como um verdadeiro Fla-Flu, sem o viés da consciência histórica do que esteve em jogo nos Estados Unidos nas últimas semanas. A conservação do poder quase imperial, auto-ungido pela sociedade norte-americana na reeleição de George Bush para os próximos quatro anos na Casa Branca, expõe a onda conservadora que se espraiou naquele país, com reverberações lamentáveis para as relações internacionais contemporâneas. O irracionalismo em política exterior, associado à lógica obtusa e arrogante da imposição de vontades próprias, sem a consideração dos interlocutores, tornou-se regra do agir, em desrespeito aberto ao direito internacional.

O segundo fato político vem do eterno Oriente Médio. Um mundo em suspenso ante a perda do reconhecido líder de uma das lutas mais antigas daquela região, mas de alcance global. Arafat representa mais do que sua presidência da Autoridade Palestina e seu papel de líder natural da antiga demanda pela afirmação daquele Estado. Sonegada a autodeterminação do seu povo no contexto do nascimento do Estado de Israel, nos estertores da Segunda Guerra Mundial, é Arafat o ícone de uma vontade incontida de afirmação de uma nação.

Nos tempos de hoje, essa forma de agir e pensar sepulta a própria inteligência e o sentido básico de cooperação entre os Estados. O unilateralismo e o desrespeito aos valores e padrões elementares de conduta internacional estão a levar o mundo para o insuportável. Se por um lado os Estados Unidos iniciavam sua saga imperial no pós-guerra, ainda que consentida pelos demais Estados aliados, também os palestinos, insatisfeitos com os arranjos do pós-guerra, iniciavam sua luta pela afirmação identitária e geográfica do seu povo.

As duas histórias se fundem em tempo mais recente, coincidindo em momento e em dimensões na tragédia da coletividade internacional. É inadmissível que a política dos Estados Unidos para a região seja tão desastrada e irresponsável. Chegou-se ao limite do suportável a sustentação obsoleta e incondicional das peripécias irresponsáveis da linha dura do regime de Sharon em Israel. É dessa conjugação de interesses e estratégias que emana o poder de Israel em obstar o nascimento do Estado Palestino. O garantidor dessa ordem injusta são os Estados Unidos. A conservação de Bush no poder é a continuação da política de afogamento das esperanças de paz no Oriente Médio.

O outro lado da história, interna ao povo palestino, é assustador. Ante a ausência de alternativas políticas consensuais para a substituição do velho líder, mantém-se, em apreensão, o medo de uma sucessão sem controle. As alternativas são todas complexas. As facções radicais palestinas, encorajadoras pelos fatos do dia e portadores de lógica política semelhante à do próprio império irracional, perpetua a irracionalidade com respostas sempre violentas. Tripudiam essas hordas de radicais, nas agruras do velho líder, sobre a memória histórica de Arafat. Exigem, a qualquer custo, mais poder no campo decisório.

Da convergência dessas duas histórias lamentáveis, a tragédia coletiva é a resultante natural. Desinteligências, deflagrações internacionais, conflitos armados não são fenômenos alheios à convivência entre povos, estados e nações. Os manuais clássicos nos ensinaram a não manter tanta ingenuidade no plano da política internacional. Da Guerra do Peloponeso, passando pela Guerra dos Cem Anos, à Segunda Guerra Mundial, os grandes conflitos sempre existiram e sempre existirão sem que o mundo se acabe. Elas são uma das tradicionais regularidades na evolução das relações internacionais.

O que é novo, no entanto, é que o acumulado de racionalidade e sensibilidade deixou de ter qualquer papel na solução das contendas e diferenças internacionais. Do egoísmo nacionalista para o fascismo o passo é curto, mas consistente. Estamos a assistir o ocaso de um líder e a conservação no poder de um outro que quer ser líder, a qualquer custo, mesmo que invocando a idéia de Deus como um guia das atrocidades que comete contra a humanidade. Nesse aspecto, sim, a humanidade regride. E a nova velha ordem internacional, inaugurada nesses dias, contribui para a ampliação do espectro da regressão.

*Professor de Relações Internacionais da UnB, pós-doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Oxford (Inglaterra)


Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

[12/NOV/2004]


   Home > Brasília

Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Carro & Moto
Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas





Promoções

Serviços




Área do leitor



Assinaturas


Rio:
(21) 2323-1000

Demais estados:
0800-707-2000

Horário de atendimento:

• Segunda à sexta-feira de 6h30 às 18h

• Sábados, domingos e feriados de 7h às 14h