A Saborella é uma sorveteria da Asa Norte de porte pequeno, balcão que expõe sorvetes de 18 sabores, máquina de café expresso e mesinhas na varanda, senhora de movimento constante, das 12h até às 22h, durante seis dias da semana, desde sua inauguração, sete anos atrás. Não é para menos. Por lá o sorvete é artesanal, feito diária e apaixonadamente por Bruno Kzam, em laboratório próprio, de maquinário de última geração, com produtos de altíssima qualidade, alguns oriundos de paragens estrangeiras como o cacau que vem da Bélgica, a
nocciola, a
amarena e o
pistacchio que vêm da Itália, só para citar uns poucos. A produção é de quantidade pensada para não sobrar porque a reposição diária é coisa da qual Bruno não abre mão. De pesquisar novos sabores, também não. Foi a Saborella quem apresentou aos brasilienses o sorvete de tapioca, a vedete da casa, o mais procurado, pivô de brigas entre comensais e responsável por má-criações e frases ríspidas (''por que não faz mais quantidade?'' e outras) e, num caso mais exacerbado, reclamação por escrito em carta dirigida a um dos jornais da cidade, devidamente publicada na sessão de reclamações dos leitores, com direito a resposta e tudo o mais. De lá saíram os sorvetes de canela, de queijo Minas curado, de arroz-doce, de açaí e mais recentemente, de curau de milho verde. Também os sazonais de taperebá, pitanga, siriguela, jaboticaba e manga-espada que, num sofisticado requinte, só dão as caras em outubro, novembro e dezembro, meses em que a natureza lhes confere o direito de virem a público, sem interferência de tecnologias aplicadas que lhes altere o ciclo reprodutivo.
Até aí, tudo bem. Pode-se qualificar a Saborella como lugar do sorvete perfeito, de sucesso, resultado da paixão de Bruno. Porém, por lá, a coisa vai mais longe e tem mais paixão movimentando a casa: a de Eleanora Kzam, a mãe do sorveteiro que confessa seu amor por cozinha e o exercita ao servir, todos os dias, a partir das 18h, uma sopa que se chama ''do Dia'', com sabor que depende única e exclusivamente de sua inspiração e pode ser apenas um delicado caldo de galinha ou a amazonense ''mujica''(camarão, caranguejo, cabeça de peixe e farinha de mandioca). Também da culinária típica da Amazônia chegam os pratos servidos na happy hour das sextas-feiras: casquinha de caranguejo; vatapá e caruru paraenses; pirarucu de casaca ''construído'' em camadas generosas do peixe, farofa de leite de coco e banana frita; camusquim (espaguete com molho de camarão); arroz de galinha e uma demorada e fantástica maniçoba (feijoada sem feijão, folhas de mandioca cozidas com embutidos), que exige cinco dias de atenção de Eleanora para seu correto preparo.
Sanduíches? Tem, com ''gosto de infância'', como conta a Eleanora. De picadinho com vinagrete e alface; de salpicão de frango; de lagarto desfiado e de berinjela, um afago nos vegetarianos.
Tira-gostos? Tem, de ''receitas de família'' e aí, volta à cena a tapioca dos sorvetes, desta vez mais sólida, com recheios de queijo, de ovo, de coco e leite condensado ou de queijo e doce-de-leite.
A arte de Bruno independe da de Eleanora Kzam. São departamentos estanques, de vida própria e espaços independentes. Os sorvetes são preparados em laboratório instalado no andar de baixo do estabelecimento e os acepipes que dão um inacreditável ''jeito de restaurante'' ao lugar, em cozinha instalada atrás de uma parede que separa o balcão e a máquina de café expresso do ''canto'' com fogão, panelas, pratos e talheres. A arte de um não interfere nem se mistura com a do outro, se complementam e convivem harmoniosamente. Não podia ser diferente - mãe e filho se realizam no trabalho que escolheram por pura paixão e aí, se igualam, se unem em recusas a convites de shoppings do Distrito Federal e de outras cidades que gostariam de ter entre suas lojas, uma filial da Saborella. Não saem da Asa Norte, não desmembram a Saborella. Apenas programam um aumento (pequeno) em sua área física, ainda assim, sem sair do Bloco D, loja 23 da 112 Norte, onde, daqui alguns meses, a cozinha de Eleanora vai sair de trás da parede e ocupar um espaço ao lado, parede e meia com o original. Ocupação cuidadosa porque, apesar do ''espírito de restaurante'' que se instala por lá quando o sol se põe, a casa é uma sorveteria e isso não vai mudar.
Em tempo: Eleanora e Bruno não se furtam de preparar embalagens para ''viagem'' com seus produtos mas rogam que as encomendas sejam feitas com, pelo menos, um dia de antecedência, pelo telefone mesmo (340-4894) para evitar que os clientes que fazem de uma ida até lá passeio rotineiro, não sejam penalizados com a falta do sorvete que quiserem degustar, as má-criações não se sucedam e as cartas aos jornais não se repitam. Pelo menos, não as de reclamações.