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O cacique da tribo dos mentirosos

Jayson Blair chegou ao primeiro time do NYT com entrevistas inventadas, reportagens imaginárias e textos plagiados

O americano Jayson Blair escreveu e inspirou barulhentas reportagens de capa. As primeiras foram peças de ficção, nascidas da mente de um mentiroso compulsivo. Muito melhores foram as que inspirou depois de demitido pelo jornal The New York Times. Os textos reconstituem a curta e vistosa trajetória de um farsante vocacional.

Em 1996, com apenas 20 anos, tornou-se editor do The Diamondback, o jornal da Universidade de Maryland. Ali começou a seqüencia de invencionices. Entre outras fantasias, atribuiu a uma overdose de cocaína a morte de um estudante fulminado no campus pelo enfarte. Outros delitos éticos e morais não impediram que, já em 1998, Blair pousasse no jornal The New York Times, o mais importante do mundo.

A mentira garantiu-lhe a chegada: afirmou que conseguira o diploma inexistente. A mentira lhe valeu a ascensão meteórica: com reportagens e entrevistas nascidas da própria imaginação, juntou-se ao grupo dos repórteres cinco estrelas. A mentira custou-lhe a carreira: em 1º de maio de 2003, desmoralizado por provas e evidências, Blair enfim capitulou: encaminhou à direção do NYT o pedido de demissão. Foi seu único texto verossímil. O primeiro. E o último.

Nos anos anteriores, colecionara façanhas suficientes para transformar-se no cacique da tribo dos repórteres sem compromisso com a verdade. Embora ameaçados de extinção, os remanescentes seguem mentindo com muita animação - e em vários idiomas. (No Brasil, um dos pajés atende pelo nome de Lourival Sant'Anna, editor-chefe de O Estado de S. Paulo nos tempos do morubixaba, e assassino a caminho do julgamento, Antônio Marcos Pimenta Neves).

Jayson Blair publicou entrevistas que não fez, descreveu paisagens que não viu, compôs o perfil de figuras que não conheceu, plagiou textos divulgados por outras publicações, simulou viagens sem apresentar comprovantes de despesas. Como no poema de Manuel Bandeira, Jayson Blair foi um jornalista que poderia ter sido. E não foi.


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[29/JAN/2006]


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