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1 ano do mensalão
Denúncia feita pelo Jornal do Brasil e confirmada meses depois muda a trajetória política do país
Paulo de Tarso Lyra, Sérgio Pardellas e Hugo Marques
Ontem, fez um ano que o Jornal do Brasil denunciou a existência do mensalão. O fato gerou uma crise sem precedentes na história do país, mudou o cenário político no Congresso e aponta para uma reviravolta no quadro eleitoral de 2006, que até então era dado como resolvido com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A avalanche de denúncias culminou com a queda do principal ministro do governo, José Dirceu, e do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti.
Em 24 de setembro do ano passado, sob o título de primeira página “Planalto paga mesada a deputados”, o JB contava a história do pagamento a deputados aliados para garantir votos favoráveis a projetos considerados essenciais ao governo: “O governo montou no Congresso um esquema de distribuição de verbas e cargos para premiar partidos da bancada governista fiéis ao Planalto. Chamado ‘mensalão’, trata-se de uma mesada fixa em troca de votos favoráveis no painel eletrônico. A denúncia foi feita por vários parlamentares ao ex-ministro das Comunicações, Miro Teixeira, quando ainda era líder do governo na Câmara”. Assim começava a reportagem. O deputado Miro Teixeira, então no PPS, hoje no PT, revelou ter sido procurado por parlamentares. A um procurador da República, afirmou – segundo o interlocutor – que deixaria naquela oportunidade a liderança do governo por “não fazer política assim”. A senadora Heloísa Helena falou em “balcão de negócios sujos”. E a República parou por alguns instantes, contou o então líder do governo na Câmara, Professor Luizinho (PT-SP). Mas uma sucessão de descaminhos sufocou o estampido ecoado pela reportagem do JB. Na Câmara, o assunto foi para a gaveta duas horas depois de o então presidente João Paulo Cunha alardear a instauração de sindicância para apurar a denúncia. O governo Lula lavou as mãos por intermédio do ministro Aldo Rebelo, da Articulação Política. “Do ponto de vista do governo”, o assunto estava superado, disse Rebelo. Miro Teixeira recuou, o restante da imprensa silenciou, nenhum parlamentar se apresentou para confirmar e o fato acabou adormecido até a confirmação do ex-deputado Roberto Jefferson à Folha de S.Paulo. Os estilhaços, no entanto, já estavam na estrada. A denúncia do mensalão mudou a trajetória do governo Lula e do PT de maneira inexorável. José Dirceu, o presidente petista José Genoino, o secretário-geral, Silvinho Pereira, e o tesoureiro Delúbio Soares, tombaram como um castelo de cartas. No Congresso, foram instaladas as CPIs dos Correios e do Mensalão. Com a contribuição da Polícia Federal, o país começou a ser desnudado. As vísceras ficaram expostas a partir do caixa 2 confessado por Delúbio, e irrigado com empréstimos suspeitos avalizados por Marcos Valério Fernandes de Souza. Como consequência, as CPIs produziram um relatório recomendando a cassação de 18 parlamentares, entre eles os deputados petistas José Dirceu e João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara. As investigações também levaram a outro registro inédito na história republicana: a renúncia, na última semana, do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), acusado de receber propina para manter um contrato de exploração de um restaurante da Casa. O mensalão também alteraria de maneira significativa o desenho da corrida sucessória. Durante a última semana, Lula experimentou o seu pior nível de confiança desde o início do governo, segundo a 11ª rodada da pesquisa do Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Agora, o próximo presidente da Câmara terá de admininistrar a limpeza do Parlamento e a retomada das votações. Na pauta despontam as reformas eleitoral e política. Estas duas foram vendidas pelo governo e Congresso como saídas para a crise. E, claro, para evitar abusos em futuras campanhas.
[25/SET/2005]
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