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Números oficiais comparados aos do caixa dois revelam os universos distintos das despesas eleitorais

Hugo Marques

BRASÍLIA - O escândalo do mensalão – que já envolve políticos de nove partidos – revela a existência de dois mundos. O real, com gastos milionários em campanhas políticas e malas de dinheiro circulando por Brasília, nas mãos de políticos. E o fictício, que seriam algumas cifras declaradas pelos partidos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

As contas do PT são o exemplo mais claro destes universos distintos. Durante a campanha eleitoral de 2002, na prestação de contas, Delúbio Soares aparece rubricando alguns contratos, entre eles um de prestação de serviços de Márcia Antunes Viana, “sem vínculo empregatício”. São modestos R$ 400 mensais, para a moça trabalhar no comitê eleitoral de Lula, em São Paulo.

No mundo real que começa a emergir do escândalo do mensalão, Delúbio é o homem que assinou empréstimos em companhia do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, que a preço de hoje somam R$ 93 milhões em dívidas para o PT. Na ficção, Delúbio aparece como um humilde dirigente que recebe por mês R$ 2 mil, além de R$ 220,00 em vale- refeição. A assessora de imprensa do PT na época, Telma Feher, recebia bem mais, na campanha: R$ 7 mil por mês.

No mundo pantanoso do mensalão, um contínuo saca R$ 326 mil das contas de Marcos Valério supostamente para o ex-diretor do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato. Na prestação de contas da campanha presidencial, o PT declarou que Pizzolato doou R$ 20 ao candidato Lula. Se fosse investimento, seria o mais rentável de todos os tempos, caso se confirme que os R$ 326 mil eram de fato destinados a ele.

Hoje, o PT é investigado por lavagem de dinheiro na CPI dos Correios. Durante a campanha eleitoral, o que deu dor de cabeça ao candidato Lula não foi a lavagem de dinheiro, mas episódios como o do Lava Rápido Wash e Park, de Pinheiros, em São Paulo. O CNPJ do lavador não foi encontrado pela Receita Federal e o PT teve de dar explicação sobre notas fiscais entre R$ 7 e R$ 10, despesas relativas a lavagens de um Fiat e de um Gol do PT. Apresentadas as explicações, a Justiça Eleitoral concluiu que não havia como “imputar responsabilidade ao candidato por irregularidade de terceiros”. No caixa oficial, os partidos só precisam justificar ninharias.

Durante a campanha, o PT não se preocupava em explicar quem era o então tesoureiro do PL, Jacinto Lamas, hoje suspeito de embolsar mais de R$ 1 milhão do mensalão de Valério. A prestação de contas da campanha presidencial de Lula mostra pagamento de R$ 2 mil a outro Lamas, Olívio, que apresentou CPF em nome de uma moça chamada Soraia. De novo, o TSE pediu a “correção”.

O ministro da Fazenda, Antonio Palocci – hoje o homem forte da economia – também teve problemas na prestação de contas da campanha: um relatório da Justiça Eleitoral não considerou inicialmente regular um recibo de R$ 14 mil do atual ministro.

Durante a campanha, a apresentação de gastos irrisórios e a detecção de pequenas incorreções tornou caricata a prestação de contas oficial. Nos gastos dos Correios, por exemplo – onde hoje crescem as suspeitas de milhões superfaturados e que foi outro “fornecedor” da campanha de Lula – o TSE encontrou um erro de R$ 7,28.

O PSDB – apontado como o primeiro beneficiário do esquema milionário de Marcos Valério – também apresentou curiosos números da campanha de 2002 ao TSE. Na conta “deslocamentos e viagens”, a planilha apresentada ao TSE pelo Comitê Financeiro Nacional do partido chega ao requinte de exibir recibos de R$ 1. Um deles seria da Associação dos Motoristas de Táxi - Serv-Táxi. Uma pesquisa na internet mostra que a Serv-Táxi funciona em Pinheiros, em São Paulo, cidade onde a bandeirada inicial é de R$ 3,20.

A prestação de contas do PSDB tem outro recibo de táxi a R$ 1, em nome do Sindicato Nacional dos Taxistas (Sintax), que funciona no Distrito Federal, onde a bandeirada inicial é de R$ 3,30.

As campanhas do PT e do PSDB apresentam despesas semelhantes em 2002 com transporte aéreo. Lula gastou no primeiro turno R$ 547 mil com o aluguel de jatos executivos da TAM. Na prestação de contas do PSDB constam pagamentos de R$ 457 mil à Líder Táxi Aéreo.

Na planilha de Lula, um dos maiores despesas com alimentação foi uma confraternização no Porcão. O PSDB foi bem mais elitista numa de suas contas; apareceram quatro notas fiscais no valor total de R$ 42,6 mil, relativas a “eventos promocionais” na Boutique Daslu, a mesma recentemente devassada por um batalhão de agentes da Polícia Federal, a mando do governo Lula.


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[31/JUL/2005]


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