Mesmo depois de eleitos, prefeitos mantêm centros sociais para garantir votos
A agricultora Maria Aparecida Valentim, de 67 anos, sentia dores no joelho na última segunda-feira. Ao chegar no posto de saúde de Piabetá, no município de Magé, um médico a encaminhou para um centro social próximo ao posto onde ela poderia fazer a fisioterapia necessária para amenizar as dores.
- O médico me indicou fisioterapia e me encaminhou para cá. Ele disse que lá no posto não tinha - explicou, enquanto esperava na porta do imóvel onde uma enorme placa indicava ''Nós cuidamos da sua saúde - Renato Medeiros''.
O que já se tornou comum em tempos eleitorais, quando candidatos a deputados e vereadores utilizam seus centros sociais para angariar votos, tem mostrado agora uma nova face. Prefeitos, responsáveis pela saúde e educação de municípios, têm se elegido com seus centros sociais e utilizam esses locais para manter seu eleitorado.
As eleições de 2004 expuseram ao país o poder dessa prática, que há cerca de 10 anos mudou a forma de se fazer política. Com foco no Rio de Janeiro, a proliferação dos centros sociais ligados a políticos conseguiu eleger também um alto número de vereadores e prefeitos no Estado do Rio.
Magé, Duque de Caxias e Belford Roxo são três dos municípios da Baixada Fluminense em que o prefeitos eleitos tinham centros sociais. São locais que ocupam o poder que deveria ser do Estado, onde se faz atendimentos médicos e são ministrados os mais diversos cursos. Em comum, a localização sempre nas áreas mais carentes dos municípios, onde a população geralmente é maior e também mais pobre e menos preparada.
Segundo o cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj), a utilização dos centros sociais se encaixa perfeitamente no sistema eleitoral brasileiro.
- Os centros são uma novidade da última década, mas devem ser compreendidos no sistema eleitoral em que vivemos. Nele, quem tem uma clientela entra para a política. É a velha prática clientelista, em que quem se beneficiou com algum serviço retribui com o voto - explica.
A retribuição é facilmente notada. Próximo aos centros, quando se conversa com as pessoas que eram atendidas no local, há um ponto convergente: os votos sempre são dados ao dono da instituição, formando-se um verdadeiro curral eleitoral.
Em Duque de Caxias, a estudante Andressa Vaúna, de 12 anos, foi procurar vaga para cursos de informática no Centro Social Gilmar da Ambulância, patrocinado, segundo funcionários pelo atual prefeito do município, Washington Reis. No momento os cursos estão suspensos.
- Já procurei vaga também no centro social de Gramacho e no de Saracuruna, mas um tinha fechado e o outro estava em obras. Curioso é que na época de eleição sempre tem vaga. Quando fiz as aulas, minha professora falou para pedir aos meus pais que votassem no prefeito. Ela disse que se ele fosse eleito o centro continuaria funcionando e teria mais cursos.
A situação mais grave entre as três cidades é a de Magé. O imóvel em que a aposentada Maria Aparecida Valentim foi buscar tratamento de fisioterapia é conhecido como SOS Núbia, em referência à atual prefeita Núbia Cozzolino. Mais de três meses depois de empossada, o local segue oferecendo os mesmos serviços médicos e educacionais. Não bastasse isso, seis funcionários com camisa da Secretaria Municipal de Saúde auxiliavam no trabalho.
Apesar de já ter passado mais de cem dias da posse, a casa ainda mantém um grande letreiro com o nome de Renato Medeiros, ex-companheiro da prefeita, que morreu há pouco mais de um ano.
O cientista Jairo Nicolau considera essa interação entre instituições do poder público e os supostos centros sociais um perigo.
- Os centros devem ser alvo de uma regulação legal porque podem estar drenando recursos públicos. É possível haver uma confusão de esfera pública e privada, com as fronteiras entre elas transbordando.
Em Belford Roxo, o local onde funcionava o centro social da atual prefeita Maria Lúcia está abandonado. No galpão, apenas o caminhão que era usado em sua campanha faz lembrar do local que, na época de eleição, promovia atendimentos médicos.