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Miséria do país se concentra nas metrópoles

Estudo da ONU aponta para bolsões de pobreza nas grandes cidades brasileiras

Daniel Pereira

BRASÍLIA - Um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) diz que as grandes metrópoles concentram a miséria no Brasil, ao contrário do que intuiu o governo federal ao dar prioridade a pequenas cidades do interior na implantação de programas sociais, como o Fome Zero. Divulgado ontem em Brasília com o título ''Investindo no Desenvolvimento: um plano prático para atingir os objetivos do desenvolvimento do milênio'', o documento da ONU afirma que o país precisa melhorar a qualidade de vida nas favelas para cumprir as metas do milênio, entre elas a redução da fome pela metade e da mortalidade materna em 75% até 2015.

- É preciso garantir que investimentos essenciais, em infra-estrutura, capital humano e administração pública, sejam canalizados para as regiões atrasadas, inclusive para favelas e grupos sociais excluídos do processo político e dos benefícios econômicos - diz o estudo da ONU, elaborado por 265 especialistas e coordenado pelo economista e professor da Universidade de Columbia Jeffrey Sachs.

O coordenador de Políticas Públicas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) no Brasil, José Carlos Libânio, ratificou a sugestão. Ele lembrou que os índices de desenvolvimento humano em cidades como Rio e São Paulo equivalem aos de primeiro mundo em bairros nobres e aos de países pobres, por exemplo, nas favelas. O coordenador-residente do Sistema ONU no Brasil, Carlos Lopes, sugeriu que o Brasil adote em 600 municípios, com população de 26 milhões de pessoas, medidas constantes no Projeto de Milênio das Nações Unidas, também divulgado ontem.

É o caso do desenvolvimento de programas de nutrição, com a distribuição de alimentos, de combate à evasão escolar por meio de transferência de renda e de ampliação dos serviços de saneamento. O estudo revela ainda que os países desenvolvidos terão de investir até três vezes mais nos países pobres e em desenvolvimento para que as metas do milênio sejam alcançadas. Em 2002, os países ricos teriam destinado US$ 65 bilhões para a empreitada. Os recursos seriam insuficientes para atender às carências nas áreas de renda, saúde, educação, entre outras. Segundo o estudo, é necessário que o investimento chegue a US$ 135 bilhões em 2006 e US$ 195 bilhões em 2015 para que as metas do milênio sejam atingidas.

- A exigência de dobrar a ajuda oficial ao desenvolvimento atual para US$ 135 bilhões em 2006, aumentando para US$ 195 bilhões em 2015, não é tão significativa quando comparada à riqueza dos países de alta renda e ao orçamento militar mundial de US$ 900 bilhões por ano - diz o texto.

Conforme reportagem publicada ontem pelo JB, eles afirmam que bastaria um investimento de 0,54% do PIB dos países desenvolvidos em ajuda internacional - percentual inferior ao 0,7% do PIB prometido há 35 anos em assembléia da ONU e ratificado em cúpula realizada em 2002 na cidade de Monterrey (México) - para que as metas sejam alcançadas. Em 2003, a ajuda dos países ricos teria sido, em média, de só 0,25% do PIB.

- Só honrando compromissos já adotados: bons governos, financiamento adequado, livre intercâmbio, acesso global à ciência e à tecnologia, é que poderemos pôr fim à extrema pobreza no planeta daqui a uma geração (2025) e reduzi-la à metade até 2015 - disse Jeffrey Sachs, anteontem, em Nova York.

Representante do FMI, Max Alier resumiu as dificuldades: ''Não há remédio mágico''.


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[19/JAN/2005]


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