Ricos e diplomados, jovens candidatos a vereador trocam o surfe e as noitadas pela caça aos votos na ruas do Rio
Com quase dois meses de campanha no retrovisor, o eleitor carioca começa a perceber uma tendência curiosa na disputa pelas cadeiras da Câmara Municipal. Um grupo de candidatos ganhou as ruas pregando uma alternativa ao discurso assistencialista predominante entre os vereadores que apontam para as áreas mais pobres da cidade. Jovens, bem nascidos, com diplomas embaixo do braço e financeiramente independentes, os integrantes dessa seleta turma estão dispostos a reduzir as viagens a Nova York, as conversas na praia e as noitadas em boates para sair à caça de votos na corrida eleitoral carioca. Como cartão de visitas, eles apresentam projetos inovadores e um bocado discutíveis.
Antonio Pedro Figueira de Mello, Rafael Gherardi, Marcelo Arar (os três do PSDB), Stelvio Bruni Rosi (PV) e Filipe Campelo (PPS) são exemplos de candidatos entre 23 e 30 anos que curtem a praia, adoram a noite e, com o apoio dos amigos, se esforçam para mudar o perfil da Câmara de Vereadores.
O ingresso na política, incentivado pelo deputado federal tucano Eduardo Paes, fez Antonio Pedro abreviar uma promissora carreira no mercado financeiro. Hoje, ele é proprietário de um badalado restaurante no Leblon.
Mais velho da turma, com 30 anos, o candidato do PSDB acorda cedo para fazer campanha. Busca votos além de sua praia, a Zona Sul. Nas ruas do Centro, faz panfletagem para fortalecer a campanha e disputa a atenção dos motoristas com ambulantes e malabaristas de sinal. Encerra cada dia com comícios domésticos - de dois a três por noite, sempre marcados com a ajuda de amigos e parentes. Antonio Pedro reconhece que não quer ser vereador por ideologia. Pretende, sim, renovar a Câmara e ''melhorar a vida das pessoas''. Ainda assim, faz questão de se diferenciar dos políticos clientelistas:
- Não atendo a pedidos pessoais, nem digo que sou candidato da Zona Sul ou de determinado bairro - afirma.
Desde que decidiu investir pesado na candidatura a vereador, o advogado Rafael Gherardi, de 29 anos, não tem tido tempo para se dedicar a um de seus maiores prazeres: o surfe. Longe das ondas, sua principal preocupação é não incomodar os eleitores na busca pelo voto:
- A maré não está para peixe, muito menos para os políticos. No corpo-a-corpo, procuro falar sobre meus projetos apenas com aqueles que abrem espaço. Quero agredir o menos possível. No fim do dia, o acúmulo de ''foras'' acaba me fazendo mal - admite.
Em média, Gherardi aperta 250 mãos por dia. Se eleito, promete implantar o parlamento virtual, uma espécie de fórum online que vai servir de termômetro para os anseios da população:
- O cidadão poderá colocar sua idéia em votação numa página da internet. Se obtiver apoio expressivo, tentarei implantá-lo na Câmara. Engenheiros de informática da PUC já tornaram viável o sistema - avisa.
O promotor de eventos Marcelo Arar, também de 29 anos, se aproveita da profissão para divulgar sua candidatura. Na semana passada fez uma festa na Lapa, com entrada franca, e conseguiu reunir 10 mil pessoas. A motivação para a política surgiu da constatação de que o setor de entretenimento pode ser fonte de emprego para a cidade.
- Há 10 anos organizo festas e percebo que essa é uma excelente oportunidade de geração de empregos. Pretendo criar postos de 2trabalho por meio do entretenimento e do turismo - explica Arar, que ficou conhecido em abril depois que organizou uma manifestação, na Barra, contra os pitboys.
Um das propostas de Arar é a criação do Museu da Alma Carioca, para homenagear todas as religiões, raças e etnias que, segundo ele, fazem parte do espírito da cidade.
Stelvio Bruni Rosi, 23 anos, entrou na política por um caminho diferente. O carro roubado numa esquina de Botafogo foi a senha para que o dono de uma produtora de vídeos começasse a mobilizar estudantes. Na universidade, organizou um abaixo-assinado pedindo mais policiamento para o bairro.
Stelvio participa da ONG Lua Solidária, fundada por jovens durante um luau beneficente na praia de Ipanema. A campanha, por enquanto, está concentrada na internet. O candidato mantém uma lista com 6 mil potenciais eleitores, cadastrados num período de dois anos e meio. Todos recebem artigos e material de campanha por e-mail.
Apesar do envolvimento com ONGs beneficentes, Stelvio reconhece que a maior parte de seu eleitorado está entre os jovens da Zona Sul. A propaganda boca-a-boca, claro, é feita na praia e em boates da moda.
- Eu malho, vou à praia, tenho carro legal. Quero ser o candidato dos meus amigos - confessa.
Aos 27 anos, Filipe Campelo acalenta um sonho de infância: ocupar um cargo público. Economista, abandonou o escritório de consultoria para se dedicar à criação do PPS. Solteiro e também morador da Zona Sul, freqüenta os mesmos locais dos jovens de sua idade e conta com a ajuda da família e dos amigos para divulgar a candidatura.
Nas ruas, Campelo inova ao distribuir cartões de visita em vez dos tradicionais ''santinhos''. Quando estreou no horário eleitoral da TV, chamou a atenção por divulgar o telefone, segundo ele, uma forma de se aproximar dos eleitores: ''Tenho muitos projetos e pouco tempo para falar. Por favor, anote meu celular'', sugeriu aos telespectadores.
- Sou jovem, mas não sou candidato dos jovens. Meus projetos são ligados aos interesses da cidade, como a construção da linha 4 do metrô e o incremento do transporte aquaviário municipal - revela.
O cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, da Uerj, acredita que a eventual eleição de candidatos bem nascidos pode ajudar a qualificar a Câmara. Ele alerta, no entanto, que o simples fato de ser conhecido de algumas turmas não é suficiente para garantir os votos e se eleger.
- Não acredito que esses candidatos que freqüentam a praia e boates da moda sejam eleitos. Essa coisa de conseguir os votos da praia demonstra certa ingenuidade - desconfia Geraldo Tadeu.
O cientista político lembra que, para garantir uma vaga, o candidato precisa ter pelo menos 60 mil votos. Isso se não quiser depender do quociente eleitoral - divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras.
- De certa forma, eles podem qualificar o debate. É saudável mudar o perfil médio atual da Câmara, extremamente assistencialista, vivendo das carências da população - aponta.
Com Bernardo Mello Franco e Mariana Vianna