CAMPO GRANDE (MS) -
Um molusco das longínquas águas chinesas, aparentemente inofensivo, está colocando em alerta pesquisadores, setor hidrelétrico, piscicultores, empresários e o Ministério do Meio Ambiente. Trazido involuntariamente na água de lastro de navios mercantes descarregada nos portos argentinos do Rio da Prata, o mexilhão dourado, que tem como habitat a água doce, aportou na América do Sul há mais de 10 anos e se espalhou por rios do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai.
A espécie exótica se expandiu pela Bacia Platina e pode causar prejuízos ao meio ambiente, aos pescadores profissionais e ao trade turístico que atua no Pantanal, em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. O molusco é uma ameaça ao setor energético e ao abastecimento de água. O invasor pode entupir tubulações e comprometer o fornecimento de água nas grandes, pequenas e médias cidades.
A pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Pantanal), bióloga Márcia Divina de Oliveira, disse que o primeiro registro do invasor nas águas do Pantanal foi em 1998.
O mexilhão dourado mede no máximo quatro centímetros de comprimento e tem grande capacidade e ritmo reprodutivo. "Cada animal pode produzir mil larvas que se tornam adultas em 20 dias", calcula Márcia Divina. De acordo com dados obtidos este ano, o molusco forma colônias que chegam à densidade de 26 mil mexilhões por metro quatro em rochas e 90 mil em madeira. "São colônias muito densas", conta a pesquisadora da Embrapa Pantanal.
Não há como exterminar o mexilhão dourado. Ele é exótico e não tem inimigos naturais. Pelo Rio da Prata, o molusco subiu os rios Paraná e Paraguai incrustado em embarcações. No Rio Paraguai o invasor está em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
Em Mato Grosso o mexilhão já chegou acima da foz do Rio Cuiabá. Além do rio Paraguai, no Pantanal Sul, em Mato Grosso do Sul, foram encontrados exemplares nos rios Aquidauana e Miranda. No Rio Paraná o organismo atinge a divisa de Mato Grosso do Sul com São Paulo.
Só agora, a partir do trabalho da Embrapa, os pescadores profissionais do Pantanal estão começando a tomar conhecimento do molusco. O presidente da Colônia de Pescadores de Miranda, Salvador de Araújo, cita o caso de um barco de madeira – conhecido pelos ribeirinhos como “lancha” - que navegava no rio Paraguai e foi transportado a Miranda para reforma. O casco da embarcação estava cheio de mexilhões dourados, relata Araújo. Segundo o líder dos pescadores, por enquanto esses moluscos não têm trazido prejuízo aos profissionais que atuam no rio Miranda, mas pode haver problemas futuros.
Ainda não se sabe se o mexilhão dourado pode causar doença aos peixes, mas, segundo a bióloga Márcia Divina, espécies invasoras podem trazer doença para animais nativos já que há peixes no Pantanal que estão se alimentando do mexilhão.
Como organismos estranhos ao meio ambiente da Planície Pantaneira, uma das possibilidades é de que as colônias de mexilhões dourados ocupem o espaço de outras espécies, como os moluscos nativos, levando-as à extinção. "Os efeitos econômicos são vistos mais a curto prazo e os efeitos ambientais mais a longo prazo", explica Márcia Divina.
Grandes comunidades de espécies invasoras, como o mexilhão dourado, costumam causar desequilíbrio ecológico. "Elas se tornam ameaça à biodiversidade. Ninguém sabe se esses mexilhões têm alguma doença, vírus ou bactéria", alerta a diretora da organização não-governamental Conservação Internacional (CI-Brasil) para o Programa Pantanal, a zoóloga Mônica Harris.
Os estragos econômicos que o molusco pode causar ainda não foram dimensionados pelos empresários do setor turístico. O primeiro-secretário da Associação Corumbaense das Empresas Regionais de Turismo (Acert), Erlon de Oliveira, soube da presença do molusco no Pantanal há pouco tempo. "Eu desconhecia isso. A maioria dos empresários do trade não conhece os danos que o mexilhão pode causar a embarcações, entre elas as que transportam turistas".
Quando esses moluscos se fixam no casco, hélices e cisternas de embarcações, eles podem comprometer o funcionamento das máquinas. Está sendo pesquisado um tipo de tinta que não permita a incrustação dos mexilhões nos barcos.