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Brasil na mira do tráfico internacional

Relatório da ONU alerta que, apesar do nível baixo de consumo de drogas, país é um forte mercado a ser explorado

Hugo Marques

AFP

No dia em que a ONU alertou o Brasil para o risco de se tornar um alvo do tráfico internacional de drogas, o ministro Márcio Thomaz Bastos esteve em Volta Redonda, onde foram queimadas 84 toneladas de maconha

BRASÍLIA - O Brasil é um dos próximos alvos dos traficantes internacionais de drogas, que estão expandindo sua ação na América Latina. O nível de consumo dos jovens brasileiros ainda é relativamente baixo, o que sugere a existência de um mercado a ser explorado. O alerta foi feito ontem pelo representante do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes (Undoc), Giovanni Quaglia, que divulgou a edição 2004 do Relatório Mundial sobre Drogas.

- O potencial de consumo é muito grande no Brasil. Alertamos que esse é o momento ideal para fazer prevenção ao uso de drogas - advertiu Quaglia, sugerindo políticas preventivas do governo para conter a ação do tráfico.

O alerta da ONU é feito com base em diversos fatores. O consumo de drogas se estabilizou nos países desenvolvidos e os traficantes começam a buscar novos mercados, segundo as informações da pesquisa. Na Europa e nos Estados Unidos, o consumo está ''saturado''. Quaglia lembra que os países da América Latina não têm política de prevenção contra drogas. Além de ter uma população em sua maioria jovem, o Brasil não pôs em prática sua política de prevenção e retém as verbas do Fundo Nacional Antidrogas. Com isso, a Secretaria Nacional Antidrogas ''carece de recursos'', na opinião do representante da ONU.

- A prevenção deixa a desejar. O fundo de combate à droga é muito pequeno. Ter R$ 15 milhões e cortar R$ 10 milhões é grave. É muito pouco para as necessidades do Brasil - criticou o representante.

Outro fator que leva as Nações Unidas a apostar no aumento do consumo de drogas no Brasil é a proximidade com a Colômbia, um território sem controle. O relatório do Undoc mostra que o consumo de cocaína na América do Sul tem crescido ''dramaticamente'' e vem aumentando no Brasil e na Colômbia. Para cada dólar investido em prevenção, calcula Quaglia, os países poderiam economizar US$ 5 em saúde, segurança pública e gastos com a Justiça.

O relatório evidencia uma redução de 16% no cultivo de coca na Colômbia em 2003, em relação ao ano anterior, em decorrência da pulverização de veneno, mas os traficantes vêm buscando novas áreas. A Colômbia produz 50 toneladas de ópio por ano, o que representa uma produção final de cinco toneladas de heroína, droga que tem aparecido com maior freqüência nas estatísticas de apreensão da Polícia Federal do país.

O Brasil também se torna um mercado potencial pelo baixo consumo de drogas em relação a nações mais desenvolvidas. Um quadro comparativo divulgado ontem pelo Undoc mostra que 3% da população mundial consomem drogas ilícitas. O consumo mundial de maconha é de 2,3% da população. No Brasil, 1% consome maconha; 0,4%, cocaína; e 0,3%, anfetaminas. Os técnicos da ONU admitem que as estatísticas não refletem a realidade, já que pouca gente admite consumir drogas. Segundo o Undoc, nos Estados Unidos 2,5% consomem cocaína e 11%, maconha.

O representante da ONU afirma que a sociedade brasileira tem de se engajar na prevenção ao uso de drogas. Na Holanda, ressalta Quaglia, o consumo se estabilizou graças à participação social. Além da prevenção, o especialista defende a criação de serviços para atendimento de dependentes em todo o país. Hoje, apenas 50 municípios têm centros de atendimento a usuários em hospitais públicos. Quaglia prega a proibição da propaganda das drogas lícitas como o cigarro.

O relatório mundial destaca o Brasil como exemplo de país que conseguiu reduzir o nível de contaminação de HIV por intermédio do consumo de drogas injetáveis. O percentual de portadores do vírus que usaram drogas injetáveis caiu de 24,5% em 1991 para 12,1% no ano 2000.

- O Brasil é modelo para o mundo inteiro - elogiou Giovanni Quaglia.


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[26/JUN/2004]


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