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A derrota do esquema para roubar Brizola

Com o auxílio do sistema JB, foi evitada a tentativa de fraude que elegeria Moreira Franco governador em 1982

Macedo Rodrigues

Reproduções
A eleição de Brizola ao governo do Estado do Rio de Janeiro, em 1982, é sempre relembrada como um feito heróico pelos pedetistas. As primeiras pesquisas apontavam o engenheiro estacionado na faixa de apenas 1% a 2% das preferências do eleitorado fluminense, um absoluto azarão. A maior adversidade, porém, só seria conhecida à época da contagem dos votos, quando se deu o caso Proconsult, tido como a primeira tentativa de fraude eletrônica na contagem de votos no Brasil.

Brizola iniciou a campanha comendo poeira dos os favoritos: Moreira Franco, apoiado pelo governo federal do então presidente e general Figueiredo; Sandra Cavalcanti, capitalizando para si a herança de Carlos Lacerda, de quem havia sido fiel colaboradora; e Miro Teixeira, menino-prodígio do chaguismo, que contava com a máquina do Estado do então governador Chagas Freitas.

A eleição era a primeira direta, após 18 anos de governo militar. E Brizola soube explorar como ninguém a inexperiência das TVs em organizar debates entre os candidatos. Sem regras tão rígidas quanto as atuais, muitas vezes os enfrentamentos se transformavam em um vale-tudo verbal, onde a verve de Brizola sempre sobressaía, troçando impiedosamente de Moreira, Sandra e Miro. Uma surra, que encantou a maioria do eleitorado carioca na reta final da eleição.

Na contagem de votos, o Tribunal Regional Eleitoral, desaparelhado, decidiu informatizar a fase final da apuração. O somatório dos mapas produzidos manualmente nas juntas de apuração em cada zona eleitoral seria feito pela Proconsult, uma empresa particular que depois, soube-se, tinha entre seus técnicos agentes do Serviço Nacional de Informações, órgão aliado dos militares, que viam Brizola como uma temeridade.

Paralelamente, o Departamento de Jornalismo da Rádio Jornal do Brasil-AM, que implantava um sistema de jornalismo 24 horas, resolveu também fazer o somatório dos mapas do TRE para dar agilidade ao seu noticiário. O resultado veio logo no primeiro dia de contagem dos votos. Com 2% dos votos apurados, a Rádio JB apontava Brizola na liderança e como favorito, enquanto a Procunsult afirmava que Moreira Franco seria o vencedor.

Procópio Mineiro, chefe de jornalismo da Rádio JB , relembrou o episódio, anos depois, em um artigo, relembrando como eram absurdas as explicações da Proconsult para as discrepâncias entre as duas contas:

''O responsável pela Proconsult, Arcádio Vieira, como matemático, analisava minha apuração e concluia que a vitória final seria de Moreira Franco por uns 60 mil votos. Os argumentos, porém, eram pouco matemáticos: falavam na elevada proporção de votos que seriam anulados na conferência final antes da entrada dos dados no computador. Ou seja, os mapas procedentes das juntas apuradoras iriam ser alterados, porque os pobres (eleitores do Brizola) não teriam competência para preencher com correção a cédula, muito complexa, pois a eleição envolvia também a escolha de senadores, deputados estaduais e federais, prefeitos e vereadores. Somado tudo, daria vantagem de 60 mil votos para o candidato do regime militar.''

Enquanto a Rádio JB e o Jornal do Brasil anunciavam a contagem paralela de votos, com Brizola na liderança, as organizações Globo reproduziam apenas os dados da Proconsult, praticamente selando a vitória de Moreira Franco. Enquanto isso, os pedetistas se agarravam ao JB como o único espaço em que poderiam denunciar a manipulação. Provém desse episódio a personificação de Brizola como um político que desafiava o poder de Roberto Marinho, que tantos votos lhe rendeu.

''No final da semana, enquanto Brizola se anunciava vencedor com base nos números da Rádio JB, o Sistema Globo recompunha seus números, aproximando-os da verdade. Um mês depois, imerso em crise, o TRE apresentou seus números: eram os nossos com diferênças de milésimos'', relembrou Mineiro.


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[22/JUN/2004]


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