Lula entra no circuito pelos R$ 260

Presidente telefona para senadores dissidentes da bancada governista e determina que mínimo seja votado hoje no Senado

Luiz Queiroz

[17/JUN/2004]

BRASÍLIA - Mesmo sem a certeza de uma maioria confortável no Senado, o governo decidiu colocar hoje em votação a medida provisória que reajusta o salário mínimo para R$ 260. A estratégia foi traçada no início da noite de ontem, após uma reunião de coordenação política no Palácio do Planalto. A urgência em aprovar o novo valor e um princípio de crise no PMDB fizeram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrar no circuito. Ao telefone, pediu votos a senadores dissidentes do bloco governista.

Enquanto os ministros Antonio Palocci (Fazenda), José Dirceu (Casa Civil) e Aldo Rebelo (Coordenação Política) se reuniam no Planalto com os líderes Aloizio Mercadante (PT-SP) e Renan Calheiros (PMDB-AL), surgiu mais uma crise para ameaçar os R$ 260 determinados por Lula.

Pelo menos quatro senadores do PMDB, sentindo-se desprezados pelo governo em relação a cargos públicos em seus Estados, ameaçaram abandonar o barco: Ney Suassuna (PB), Ramez Tebet (MT), José Maranhão (PB) e Valmir Amaral (DF). A rebeldia obrigou Lula e Palocci a dispararem telefonemas durante todo o dia, pedindo votos a favor da MP.

Até o fim da tarde, o mapeamento do Planalto indicava que, dos 22 senadores do PMDB, 12 estariam dispostos a votar contra o governo. Na liderança da legenda, entretanto, a conta era outra: Apenas quatro - e não necessariamente todos os ''carentes'' - devem votar hoje contra os R$ 260.

No caso de Suassuna, a situação foi mais grave. Às vésperas da votação, o senador ameaçou deixar a vice-liderança do governo no Senado e votar contra a MP. O Planalto temia que a atitude provocasse uma debandada no PMDB, que passaria a apoiar a proposta da oposição, de R$ 275.

Acionado para apagar o incêndio, Aldo Rebelo conversou com Suassuna e conseguiu demovê-lo da idéia de abandonar a liderança. Mesmo recuando da decisão de deixar o cargo, no entanto, o senador não revelou se votará contra ou a favor da medida provisória.

O presidente do Senado, José Sarney, afirmou ontem que o salário mínimo é o primeiro item da pauta de votações. Segundo ele, não há como não cumprir o regimento. Termina hoje o prazo de três sessões para a votação da MP.

Para a oposição, as novas concessões que estariam sendo feitas nos bastidores do Senado podem acabar fazendo com que o governo pague um preço muito mais alto do que num suposto aumento do mínimo para R$ 275. Liberações de emendas dos senadores governistas ao Orçamento e as destinações de novos cargos federais continuam sendo negociadas pelos ministros, independentemente de o Planalto ter prometido recompor o valor do mínimo no ano que vem com base no desempenho do Produto Interno Bruto.

- O custo financeiro pode não valer a pena se comparado ao custo político que o presidente Lula terá de enfrentar por conceder um salário menor - alertou o senador Paulo Paim (PT/RS), reafirmando que deixará o PT caso a Comissão de Ética da sigla abra processo contra ele após a votação.

O líder do PFL, senador José Agripino Maia (RN), afirmou que não há defecções em sua bancada. Durante reunião da legenda, dois votos foram por um salário mínimo de R$ 300 - um deles da senadora Roseana Sarney (MA). Os demais apoiaram a proposta do relator revisor, César Borges (PFL-BA), de R$ 275.

- Não há um voto sequer pela proposta do Planalto, de R$ 260, que é antipatriótica e está contribuindo para deixar evidente a fratura exposta entre o governo e sua base de sustentação - avaliou Agripino.

À noite, o presidente Lula se reuniu com os líderes dos partidos da bancada governista que apóiam o governo e ministros do núcleo duro para debater a estratégia de votação. Participaram da reunião os senadores Fernando Bezerra (PTB-RN), Aloizio Mercadante (PT-SP), Ideli Salvatti (PT-SC), João Capiberibe (PSB-AP), Duciomar Costa(PTB-PA), Renan Calheiros (PMDB-AL) e Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR).

Copyright © 1995, 2000, Jornal do Brasil. É proibida a reprodução
total ou parcial do conteúdo do JB Online para fins comerciais

http://www.jb.com.br/jb/papel/brasil/2004/06/16/jorbra20040616001.html