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Lula entra no circuito pelos R$ 260

Presidente assume a coordenação política, telefona para senadores dissidentes e determina que mínimo seja votado hoje

Luiz Queiroz

BRASÍLIA - Mesmo sem a certeza de uma maioria confortável no Senado, o governo decidiu colocar hoje em votação a medida provisória que reajusta o salário mínimo para R$ 260. A estratégia foi traçada ontem à noite, após duas reuniões no Palácio do Planalto com ministros, líderes partidários e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A urgência em aprovar o novo valor fez Lula assumir pessoalmente a coordenação política. Ao telefone, pediu votos a senadores dissidentes do bloco governista e prometeu continuar a ofensiva hoje.

A maior preocupação do Planalto é com o lançamento da candidatura do ex-senador Iriz Resende à prefeitura de Goiânia. O evento pode atrasar a chegada a Brasília de boa parte dos parlamentares do PMDB. A líder do PT Ideli Salvatti informou que Lula chegou a perguntar se não seria possível adiar o lançamento. O colega Renan Calheiros (PMDB-AL) disse que não. Diante do impasse, a estratégia do governo será postergar ao máximo o horário da votação, com o apoio do presidente da Casa, José Sarney.

Enquanto tenta contornar os conflitos de horário, o Planalto promete carga total na batalha pela aprovação dos R$ 260. Os ministros Antonio Palocci (Fazenda), José Dirceu (Casa Civil) e Aldo Rebelo (Coordenação Política), já foram acionados e vão passar o dia em busca do apoio dos indecisos.

Na manhã de ontem, o governo foi surpreendido por uma crise no PMDB. Pelo menos quatro senadores do partido, sentindo-se desprezados em relação a cargos públicos em seus Estados, ameaçaram abandonar o barco: Ney Suassuna (PB), Ramez Tebet (MT), José Maranhão (PB) e Valmir Amaral (DF). A rebeldia obrigou Lula e Palocci a dispararem telefonemas durante todo o dia, pedindo votos a favor da MP.

Até o fim da tarde, o mapeamento do Planalto indicava que, dos 22 senadores do PMDB, 12 estariam dispostos a votar contra o governo. Na liderança da legenda, entretanto, a conta era outra: Apenas quatro - e não necessariamente todos os ''carentes'' - devem votar hoje contra os R$ 260.

No caso de Suassuna, a situação foi mais grave. Na véspera da votação, ele ameaçou deixar a vice-liderança do governo no Senado e votar contra a MP. Quase provocou uma debandada no PMDB rumo à proposta da oposição, de R$ 275.

Acionado para apagar o incêndio, Aldo Rebelo conversou com Suassuna e conseguiu demovê-lo da idéia de abandonar a liderança. Mesmo recuando da decisão de deixar o cargo, no entanto, o senador não revelou se votará contra ou a favor da medida provisória.

José Sarney garantiu que o salário mínimo é o primeiro item da pauta de votações. Segundo ele, não há como não cumprir o regimento. Termina hoje o prazo de três sessões para a votação da MP.

Para a oposição, as novas concessões que estariam sendo feitas nos bastidores do Senado podem fazer com que o governo pague um preço muito mais alto do que num suposto aumento para R$ 275. Liberações de emendas dos senadores governistas ao Orçamento e destinações de novos cargos federais continuam sendo negociadas pelos ministros, independentemente de o Planalto ter prometido recompor o valor do salário no ano que vem com base no desempenho do Produto Interno Bruto.

- O custo financeiro pode não valer a pena se comparado ao custo político que o presidente Lula terá de enfrentar por conceder um salário menor - alertou o senador Paulo Paim (PT/RS), reafirmando que deixará o PT caso a Comissão de Ética da sigla abra processo contra ele após a votação.

O líder do PFL, senador José Agripino Maia (RN), informou que não há defecções em sua bancada. Durante reunião da legenda, dois votos foram por um salário mínimo de R$ 300 - um deles da senadora Roseana Sarney (MA). Os demais apoiaram a proposta do relator revisor, César Borges (PFL-BA), de R$ 275.

- Não há um voto sequer pela proposta do Planalto, de R$ 260, que é antipatriótica e contribui para deixar evidente a fratura exposta entre o governo e sua base de sustentação - avaliou Agripino.


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[17/JUN/2004]


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