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Sucessor de Tabak é sócio em empresa

Luiz Fernando Bouzas integra a mesma firma citada pelo Ministério da Saúde como sendo do diretor demissionário do Cemo

Ana Carolina Gitahy, Daniela Dariano e Israel Tabak

Jorge Cecílio

Daniel Tabak considera ''ridículo'' vincular suas denúncias à existência das empresas

Luiz Fernando Bouzas, médico designado para dirigir interinamente o Centro de Transplante de Medula Óssea (Cemo) do Instituto Nacional do Câncer (Inca) é sócio do diretor demissionário do Centro, Daniel Tabak, na firma Stemcell Transplantes de Medula, em processo de extinção. De acordo com Arthur Chioro, Secretário de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, um dos motivos que levaram Tabak a denunciar ingerência política no sistema nacional de transplantes foi a sua resistência em se desligar das três empresas das quais é sócio.

A Stemcell é uma das três empresas cujos nomes foram divulgados ontem pelo Ministério da Saúde. Bouzas confirmou ontem a sociedade, que inclui outros médicos, mas disse que a empresa já não funciona há muito tempo e que há mais de dois anos assinou todos os papéis para efetuar o seu desligamento.

Para Daniel, a nomeação de Bouzas é mais um dado para comprovar ''o ridículo'' de vincular as denúncias a uma eventual ''resistência'' em se desligar das empresas.

- Uma das firmas é meu consultório particular. A outra trabalha com quimioterapia. Não têm o foco no setor de transplantes. São da minha especialidade, oncologia. A terceira, que fechou, nunca se propôs a fazer transplante a partir de doador, que é o principal área de atuação do Inca. Ela se destinava a fazer transplante autólogo, cujas células vêm do próprio paciente.

Daniel Tabak conta que, assim como todos os médicos do Instituto na mesma situação - ou seja, com cargos de confiança e vinculados a empresas - foi informado de que não poderia exercer o cargo de sócio-gerente.

- A chefia de gabinete do Inca informou a mim e a outros médicos, inclusive a outros diretores, que, de acordo com a legislação, nós poderíamos continuar sendo sócios, não gerentes. O diretor de assistência, Luiz Augusto Maltoni, é um dos que estavam nessa situação.

O ex-diretor do Cemo informa que, após o comunicado, deu início aos procedimentos burocráticos para atender à solicitação.

Daniel Tabak também estranhou as afirmações de diretores do ministério de que as denúncias que fez também teriam sido motivadas por ''resistência'' a mudanças que estariam sendo feitas no setor de transplantes.

- Isso é uma inversão total dos fatos. Fomos nós que oferecemos propostas de mudanças e soluções para os inúmeros problemas que envolvem o sistema nacional de transplantes. Na primeira reunião em 13 de agosto, em Brasília, para discuitir a problemática do setor, nos cobraram várias propostas e um relatório sintético. Cumprimos fielmente a determinação do ministério. Como poderíamos ser resistentes ao que nós mesmos propusemos?

Tabak realça que o principal gerador de interferências políticas - origem do ''pistolão'' para tentar furar a fila dos pacientes à espera de transplantes - é a falta de recursos suficientes para bancar o programa.

- O ministério tem que decidir o mais rapidamente possível o quanto está disposto a pagar para salvar vidas.

O especialista denunciou o que chamou de ''credenciamento-relâmpago'' do Real Hospital Português, Recife, sem que fosse sequer apreciado o relatório que fez, a pedido, do ministério, desaconselhando a medida. Ontem, Tabak exibiu o recibo do gabinete do diretor geral do Inca, José Gomes Temporão, acusando a entrega do extenso relatório que fez sobre o caso. O relatório foi entregue dia 23 de outubro, mas a portaria credenciando o hospital foi publicada dois dias antes.

Tabak também exibiu extrato de uma correspondência trocada entre o Coordenador do Sistema Nacional de Transplantes, Diogo Mendes, e a coordenadora do Registro de Doadores de Medula Óssea, Iracema Salatiel, no qual Diogo usa o termo usa o termo ''proceder imediatamente'' em relação ao caso de uma paciente. A situação, segundo Daniel, configurava uma interferência indevida num processo estritamente técnico. Em relatório enviado a José Gomes Temporão, Daniel Tabak conta que Diogo, numa reunião, na frente de muitas testemunhas, informou que atuava no caso da paciente ''por determinação direta do presidente da República em exercício'' (José Alencar).


[22/JAN/2004]


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