BRASÍLIA -
Secretário de Atenção Especializada da Secretaria de Atenção à Saúde, Arthur Chioro repreendeu o coordenador do Sistema Nacional de Transplantes, Diogo Mendes, por ter citado, durante reunião, o nome do vice-presidente da República, José Alencar, como responsável por interferência política nos mecanismos estabelecidos para transplantes de medula óssea.
Em memorando entregue ao Ministério da Saúde esta semana, o diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea (Cemo), Daniel Tabak, denuncia ingerência política nos transplantes. Dá como exemplo o credenciamento do Real Hospital Português, do Recife, para realizar transplante de medula com a suposta interferência de familiares do paciente, de 8 anos, que teriam procurado o ministro pernambucano Humberto Costa. Tabak foi um dos encarregados de inspecionar o hospital para eventual credenciamento, mas conta que o Hospital Português foi credenciado junto ao SUS menos de 24 horas após sua visita, sem tempo hábil para o envio do relatório ao Inca.
- O credenciamento de um hospital privado, que havia obtido o material para o transplante por meios que contrariam totalmente a orientação do Ministério da Saúde, é uma incoerência. As circunstâncias do processo devem ser avaliadas - relatou Tabak.
Outro exemplo citado por ele é o de uma paciente paulista. Numa reunião no Inca em dezembro, Tabak relata ter ouvido o coordenador do Sistema Nacional de Transplantes, Diogo Mendes, dizer que interferia no caso da paciente ''por determinação direta do presidente da República em exercício''. Antes disso, segundo Tabak, o deputado Dimas Ramalho (PPS-SP) teria encaminhado ao vice-presidente, José Alencar, pedido de informação sobre o caso da paciente paulista. Alencar, por intermédio de sua assessoria, disse jamais ter solicitado atendimento ao Inca.
O Ministério da Saúde tem outras versões. Arthur Chioro diz que a paciente paulista não chegou a ser atendida no Inca. Chioro, no entanto, afirma que o credenciamento do Hospital Português se deu um dia após Tabak apresentar relatório sobre o hospital. Segundo ele, Tabak concordou, por telefone, com a realização de um procedimento ''excepcional'' no Hospital Português. O Ministério da Saúde negou ontem qualquer contato do ministro da Saúde com a família do menor.
Para Chioro, as denúncias decorrem de ''resistência às mudanças'' anunciadas pelo Ministério da Saúde nos critérios técnicos para implantes, ampliação dos hospitais credenciados, distribuição de orçamento e cobrança de desligamento dos servidores junto a empresas privadas. Uma pesquisa da Casa Civil teria constatado que Tabak tem laços jurídicos com três empresas do setor. Segundo o ministério, Tabak foi advertido de que não ficaria no cargo se não se afastasse delas.
Daniel disse ontem que não tem laços jurídicos com empresas relacionadas ao setor de transplantes, mas apenas com empresas de oncologia, sua especialidade. A única empresa que tinha vínculos com o setor não existe mais, segundo ele.
O Ministério da Saúde anunciou a realização de auditoria nacional no serviço de transplante de medula óssea, coordenado pelo Inca, e pediu o acompanhamento do Ministério Público. Ontem, o ministério publicou portaria no Diário Oficial da União criando sindicância para investigar supostas interferências políticas para furar a fila de transplantes.
O ministro da Saúde, Humberto Costa, anunciou que vai entrar na Justiça contra o deputado federal Serafim Venzon (PSDB), que agradeceu o publicamente a ''ajuda'' do ministro a um paciente na fila do transplante.