Ex-diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea, Daniel Tabak diz que não tem ''jogo de cintura para ser governo''
''Este é o ônus de ser governo. É preciso ter jogo de cintura''. Foi esta a expressão usada por Arthur Chioro, Secretário de Atenção Especializada da Secretaria de Assistência à Saúde do Ministério da Saúde, ao responder ao oncologista Daniel Tabak, numa reunião no Instituto Nacional do Câncer, em 16 de dezembro de 2003, segundo consta de um relatório elaborado pelo médico.
Daniel Tabak, que se demitiu do Centro de Transplante de Medula Óssea (Cemo), do Instituto Nacional do Câncer (Inca), havia se referido, na reunião, à existência de critérios políticos, e não técnicos, que estavam interferindo indevidamente nos mecanismos oficiais de transplante de medula óssea. Pressões políticas em favor de determinados pacientes na fila dos transplantes foram a principal causa da demissão do especialista.
O episódio, descrito por Daniel no relatório entregue ao diretor-geral do Inca tem a ver com um caso específico de interferência política relacionada a uma paciente na fila do transplante. Segundo Daniel, houve ''vários pedidos de interferência'' no processo formal de encaminhamento de exames da paciente.
Ele cita a participação no processo do Coordenador do Sistema Nacional de Transplantes, Diogo Mendes:
- Tenho documentação, com cópia enviada ao diretor do Inca, comprovando mensagens trocadas entre Diogo e a coordenadora do Registro de Doadores de Medula Óssea (Redome), Iracema Salatiel, que é minha subordinada, pedindo um tratamento diferenciado para a paciente. Ou seja, furar a fila. Na realidade, ele deveria pedir isso a mim e não a ela - esclareceu ontem Daniel.
O médico diz, no relatório, que, ao ser questionado sobre os motivos que determinaram sua atuação no caso, Diogo Mendes afirmou que assim ''agia por determinação direta do presidente da República em exercício'' (José Alencar). Quando resolveu perguntar a Arthur Chioro se esse critério representava ''um novo padrão de universalidade'', recebeu a resposta falando em ''jogo de cintura''.
- Respondi que por isso eu não poderia ser do governo - disse Daniel.
O documento faz referência também a uma correspondência para o deputado federal Dimas Ramalho (PPS-SP), em que Diogo Mendes descreve em detalhes a situação clínica da paciente. Segundo relata Daniel, Diogo chega a propor a realização de um transplante a partir do pai do paciente, embora não haja registro de nenhum transplante desse tipo no país.
O médico dá os nomes de alguns dos presentes à reunião, além de Chioro e Diogo Menes: José Gomes Temporão, diretor do Inca, Luiz Antonio Maltoni, diretor de assistência do Inca, Luiz Fernando Bouzas, diretor-substituto do Inca e Iracema Salatiel, coordenadora do Redome, entre outros.
No relatório, Daniel também se refere ao caso do Real Hospital Português, de Recife, que considera ainda mais grave. Ontem, mostrando documentos, o ex-diretor do Cemo afirmou que a portaria credenciando o hospital para o sistema público de transplantes de medula é do dia 21 de outubro de 2003, enquanto o seu parecer, não recomendando o credenciamento, só foi entregue a José Gomes Temporão no dia 23.
- Gastaram dinheiro de passagem e de hospedagem para um técnico dar um parecer que não foi nem lido antes da decisão - critica.
No relatório, Tabak diz que, com o credenciamento, foram criadas condições ''para que um determinado paciente fosse transplantado'', o que caracteriza uma ingerência nos mecanismos estabelecidos, comprometendo a universalidade do atendimento.
- Opinei que o paciente poderia ser transplantado, sem necessidade de se credenciar o hospital, o que seria uma forma de furar a fila. Como ficariam os outros pacientes? Jamais me referi à incapacidade do hospital. Apenas disse que outros centros, por vários motivos, deveriam ser credenciados antes, se fossem seguidos critérios eminentemente técnicos.
Para Daniel, a ingerência política dos últimos tempos no sistema de transplantes coloca os médicos numa situação-limite.
- Os políticos ficam com o bônus dos favores, e nós com o ônus de comunicar à maioria de que a fila foi furada. Em outro relatório enviado a Temporão, Daniel diz ter sido informado pelo coordenador da unidade de transplantes do hospital, Maurício Ostronoff, de que o pedido de credenciamento não teria sido decisão sua: ''Devido a conhecimentos pessoais, o avô paterno do paciente contactara diretamente o Ministro da Saúde, Dr. Humberto Costa''.
O médico diz que a informação, dada por Ostronoff, foi ouvida numa reunião em que estavam presentes o diretor clínico do hospital, Jorge Mendes, o médico da unidade de transplante, Kleber Mathias, o coordenador do serviço de hemoterapia, Clemente Taggliari, e Josebnerg Marins, coordenador da Central de Transplantes de Pernambuco.
Ostronoff contestou, ontem, a versão de Tabak e atribuiu as acusações a ''desgaste nervoso'', ''carga psicológica'' e dificuldades políticas de um ''momento de demissões'':
- Não é verdade, não tem nada a ver. Sei lá de onde ele tirou isso.
Maurício Ostronoff confirmou, no entanto, que o pedido de credenciamento da unidade de saúde para realizar transplantes de medula óssea entre não aparentados foi feito pela necessidade de atender um paciente, que já foi operado e se recupera, internado, da leucemia avançada. Ostronoff assegura que, havia três meses, o hospital e a equipe já estavam preparados para realizar esse tipo de transplante, mas só então surgira o primeiro paciente com necessidade da intervenção.
- Somos monitorados pelo Ministério da Saúde. Tivemos que informar a necessidade de fazer o transplante e disseram que era imperativo o credenciamento. Solicitamos. Tanto a Central de Transplantes de Pernambuco quanto o ministério estavam de acordo não só com a necessidade de credenciar como com a capacidade do hospital - garante Ostronoff.