RIO -
No meio da interminável onda revival dos "anos 80", onde o brega-cheio-de-pretensões virou a bola da vez, subir ao palco e destilar um repertório impecável ao violão, com arranjos minimalistas, soa como a contramão da contramão. Mas Leoni - sim, aquele mesmo ex-Kid Abelha e ex-Heróis da Resistência - prova que música boa não envelhece, e, sobretudo, atravessa gerações.
No show de lançamento do CD/DVD Leoni ao vivo (Som Livre), realizado na última quinta-feira, no Canecão, Leoni provou que ainda está em plena forma e sabe comandar um espetáculo como poucos. Contando com um repertório de hits, a música rola solta e fica fácil conquistar a platéia - que aliás, se entregou logo na primeira música: Temporada das Flores. Durante todo o show, Leoni contou com o coro da platéia, mesmo nas músicas menos conhecidas, como a bela Fotografia, do disco Você sabe o que eu quero dizer, e escolhida na comunidade do cantor na página de relacionamentos Orkut.
Entre uma canção e outra, o jeito calmo e tímido do cantor surpreende pela simplicidade com a qual se comunica com a platéia. No megahit Garotos II, Leoni corrige o coro no meio da música: "é eu não me importo comigo!", repreendeu, para depois parar de tocar aplaudir a platéia. E em Fixação, ele não deixa por menos: toca uma versão lenta, calma e suave, para depois apresentar a versão "tirana" do sucesso, gritando e maltratando o violão. Afinal, uma música cujo refrão é "eu quero você como eu quero" não tem mesmo nada de calma e suave...
E não parou por aí o desfile de sucessos: Por que não Eu? - trilha sonora de novela e que no DVD é cantada em parceria com o boa praça Herbert Vianna, ao vivo ganhou versão cantada pela platéia no bis - Fixação, Alice, Lágrimas e Chuva, Os Outros, Educação Sentimental, todas dos tempos no Kid Abelha. Dos tempos à frente dos Heróis da Resistência, Leoni ressuscitou Nosferatu, Dublê de Corpo, Esse Outro Mundo e as não menos "tiranas" Só pro Meu Prazer e Como Eu Quero, executadas ao piano de Eduardo Souto Neto, que não desanimou mesmo com o crônico chiado nas caixas do Canecão.
Leoni também é sinônimo de grandes nomes do Rock Brasileiro no palco. Costumam dar o ar da graça Léo Jaime, Herbert Vianna, Dinho Ouro Preto, entre outros. E desta vez não foi diferente: Roberto Frejat cantou com Leoni as parcerias A Chave da Porta da Frente, gravada pelo Barão, e a recente 50 receitas. Frejat ainda teve tempo de cantar Exagerado - parceria de Leoni com Cazuza - e deixar o palco sem se despedir de um por vezes desajeitado Leoni. Ainda no set, Daniel Lopes, guitarrista com um som brilhoso e marcante, teve tempo de mostrar uma boa composição da banda Reverse, da qual é líder. Também marcaram presença Ricardo Santoro, no Cello e Marcelo Bernardes, Clarineta.
As duas mil pessoas que lotaram o Canecão, numa quinta-feira, e cantaram junto do início ao fim saíram satisfeitas. É um show leve, despretensioso, limpo e direto. Uma espécie de violão entre amigos - só que com algumas centenas de amigos! Afinal, no meio dessa onda forçada anos 80, as músicas de Leoni parecem ter sido compostas ontem.