O bom acabamento literário – preocupação cada vez mais escassa entre especialistas de qualquer área – é mais um dos muitos traços de excelência desta nova seleta dos escritos de exercício diário do profissionalismo exemplar de Tárik de Souza. Outros estão na busca criteriosa de mais informar do que opinar, na independência, mas não indiferença, diante de tendências e correntes, e na persistente atualidade do conteúdo, uma proeza quando a matéria, em boa parte, tem características circunstanciais. Tárik dá caráter de permanência e estatura histórica ao ofício do dia-a-dia, só no Jornal do Brasil uma saga de 30 anos de crítica ética e noticiarismo de primeira mão, desde 1974.
Estamos agora novamente diante de textos de exegese, de sofisticada conotação ensaística, mas em geral dotados do teor informativo que marca títulos clássicos da bibliografia de nossa música popular, como os imprescindíveis livros documentais do pesquisador emérito Ary Vasconcelos e as toscas anotações biográficas, vitais para a memória do choro, reunidas pelo carteiro Alexandre Gonçalves Pinto em 1936.
O livro de Tárik tem mais samba, de fato, e até mais do que samba, pois adianta-se por extensões, prolongamentos e entornos, talvez para alguma contrariedade de eventuais intransigências provavelmente despercebidas de que o conduto central exibe o samba mais forte ou, euclidianamente, antes de tudo – e de todos os outros – um forte, o forte. Faz-se aí, por intermédio de individualidades, de pessoas, o seu inventário: gênese e trajetória até a afirmação plena, a atual ante-sala de um fio que, tudo indica, jamais será virado.
O primal Donga, na condição de parteiro oficial do gênero, abre o desfile ao lado de Vó Maria, sua viúva, uma surpreendente novidade de 92 anos.
Passa de uma centena a galeria dos nomes da construção do samba examinados, reavaliados em retrospectivas, analisados no momento mesmo do vôo da criação, num novo instante de sua produção ou flagrados na fruição de um quadro de costumes do seu estilo de vida.
E temos a voz de todos os batuques de Clementina de Jesus; Sinhô, um dos fundadores não só do samba mas do mercado musical, e seu desafeto Heitor dos Prazeres; Ismael Silva e os luminares (Bide, Marçal e mais doutores) que fixaram o feitiço do Estácio, ainda soberano; o onipresente Francisco Alves; Noel e sua escudeira Aracy de Almeida, samba em pessoa intermitentemente "redescoberta", nota Tárik com certa malícia, por uma intelectualidade carente do cult.
Vemos Ary Barroso no ano do centenário, o múltiplo Caymmi, Cartola e Carlos Cachaça, o elegante (em todos os sentidos) Paulo da Portela, o samba-enredo e seus cardeais imperianos Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, Nelsons (Cavaquinho e Sargento), Candeia profeta da resistência, Dona Ivone Lara rosa do povo, o príncipe Roberto Silva, os breques de Morengueira, toda a divindade de Elizeth Cardoso, as lições de talento e sobriedade de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, as rimas de Nei Lopes, a picardia cadenciada de João Nogueira, a fidalguia bem cortada de Walter Alfaiate.
O trajeto é longo e luminoso até alcançar a estrela da hora Teresa Cristina na Lapa renascida. Há esticada a São Paulo para tratar dos megaclássicos de Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini e reverenciar Isaurinha Garcia, do Brás, e Geraldo Filme, o Geraldão da Barra Funda.
Realinham-se renovadores e desbravadores como Mário Reis, Dick Farney, Lúcio Alves, Luís Bonfá e o meticuloso João Gilberto do encaixe perfeito entre violão e voz, ele próprio um conhecedor profundo do desenvolvimento do samba. Newton Mendonça avança da penumbra, Johnny Alf segue na vanguarda após ultrapassar o meio século de carreira, Alaíde Costa é puro requinte, Nara Leão nunca foi tão musa.
Dos pioneiros às conquistas recentes, realimentadoras, de Tom Jobim a Mundo Livre S/A, passando por João Bosco, Aldir Blanc e Moacyr Luz, partideiros e pagodeiros, amplia-se o espectro, com as imperdoáveis omissões da ligeireza desta resenha (as da obra não contam, pois não se pode, pela natureza de seu feitio, pretendê-la fechada). Chico Buarque, fornecedor do título, ganha o estudo mais extenso e aprofundado.
Tárik de Souza ergue esse painel monumental em trabalho recluso, no apartamento entulhado de discos, livros, recortes e, agora, disquetes e mais acessórios da documentação informática. É aí que produz – "opero as tetas da arte, metido em fungos", como já disse num livro de poemas –. É poeta publicado, a veia lírica expressa em versos de ritmo musical.
Vai ao cinema, também profissionalmente: integra o corpo de críticos que avalia – no seu caso, sem contemplação com os musicais – os filmes para a revista Programa. Digressão de fato, só as imprecações – e sempre bem fundamentadas – contra um ex-deputado federal e um ex-delegado de polícia, intempéries que desabaram sobre a colina de São Januário, ali ao lado do bairro imperial, de onde o Vasco da Gama, sua paixão e de vários dos personagens que povoam o livro, reinou durante algumas quadras sobre o futebol, o outro pólo, contraponto da música popular, do apego mais entranhado dos brasileiros.