Ao contrário de Caetano e Gil, Tom Zé não buscava uma bela canção popular, mas sim fazer do ruído, da polifonia e da imperfeição sua morada. Com o tempo, o distanciamento foi inevitável:
"Em música, quem está numa situação não tão popular fica difícil acompanhar. Não é culpa de ninguém. Quando saí da proximidade de Caetano e Gil eles não sabiam onde eu ia parar. E se eu tivesse me metendo num suicídio? Tinha que apresentar algum resultado pra eles entenderem o que eu queria, e assim compreenderam depois, com muito carinho".
A busca por uma linguagem própria se complexificou de tal maneira que se tornou um incompreendido. Um belo dia, um anjo chamado David Byrne, ex-Talking Heads, descobriu num sebo do Rio o LP Estudando o samba e se interessou por aquele baiano que havia participado do disco-chave do Tropicalismo, Tropicália ou Panis et Circensis (1968).
Em 1990, Byrne lhe devolveu a auto-estima lançando no exterior, por seu selo, o CD The best of Tom Zé, que compilava a originalidade que tinha posto o cantor na jaula de incompreendido e que o tornou uma celebridade lá fora. A Rolling Stone, talvez a principal revista de música do planeta, colocou o disco entre os dez melhores da década. Foi o suficiente para que sua carreira voltasse a prosperar, com shows concorridos aqui e no exterior, o que culminou com o lançamento do ótimo Defeito de fabricação, em 1999.
As peculiaridades, no Brasil por vezes vistas como excentricidades, encantaram os gringos, como os instrumentos que Tom Zé criou com aspiradores de pó e batedeiras. Os artefatos podem ser vistos no show de seu primeiro DVD, baseado no disco anterior. O novo CD, Imprensa cantada, também resguarda outra característica do trabalho do cantor, que gosta de se utilizar dos fatos do cotidiano para atrair a platéia, tal como fazia na Irará de sua infância, cidade próxima a Feira de Santana (BA).
"Ainda pequeno, decidi quebrar a postura ultra romântica dos cantores da época cantando músicas cujos assuntos eram as pessoas da cidade, como se botasse um espelho nelas. Quando fui cantar na televisão, em Salvador, em 1960, procurei jornais para pegar temas gerais e fiz sucesso. Eu, que nem sabia que podia virar cantor, acabei virando cantor naquela noite".
Mais do que um gosto, descobriu a música como uma necessidade: "Não pretendia inovar nada, só queria um buraco no mundo, um cabide ontológico, um jeito de existir como pessoa naquela casa repressiva, em meu acanhamento terrível para me relacionar, todos os terrores que na infância pareciam invencíveis. Passei a perseguir a música como tentativa de sair do limbo e de começar a existir". (J.B.C.)