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Emilinha Borba e Ney Matogrosso

Em entrevista ao cantor, a rainha do rádio lembra o tempo de caloura, nega que tenha 80 anos e que venda discos como camelô na rua e diz que criou o jabá

joao@jbonline.com.br

Luiz Morier
Emilinha e Ney

Ney Matogrosso e Emilinha Borba: encontro na casa da estrela do rádio

Passava das 19h quando Ney Matogrosso e o JB Online chegaram à casa de Emilinha Borba, em Copacabana. Vaidosa, a maior estrela da época de ouro da Rádio Nacional, na década de 40, ao lado de Marlene, 12 vezes campeã dos disputados concursos de músicas de carnaval – nos deixou alguns minutos esperando antes de seu maquiador dar os retoques finais. Amigos e familiares vinham cumprimentar outro de seus ídolos, um educado Ney, ciente de que não seria o centro das atenções. A hospitalidade, refletida no batalhão de salgadinhos que chegavam à modesta mas cuidadosamente decorada sala, indicava que o momento fora delicadamente planejado por uma virginiana, detalhista como todos os virginianos.

Nascida no dia 31 de agosto, Emilinha sabia que a idéia de ser entrevistada por Ney Matogrosso, a convite do JB Online, se devia a mais um aniversário(segundo todos os anais da música, ela teria completado 80 anos ontem). O encontro ela aceitou, ávida em receber, pela primeira vez em sua casa, o carinho do amigo, que conheceu em 1977. Mas, a idade, jamais. Apesar disso, não se furta a celebrar a data, hoje, na Igreja Nossa Senhora da Lampadosa, na Praça Tiradentes, na missa que todo ano reúne seus fãs. Se ofende tanto ou mais do que quando é indagada sobre sua vida pessoal, motivo que a fez desistir de lançar sua biografia. Nem mesmo a insistência de um quebrador de tabus como Ney conseguiu dobrá-la, nas três horas que durou a visita, relutando em falar dos quatro anos em que viveu escondida com o filho do ministro da Fazenda de Getúlio Vargas, Arthur Souza Costa, com quem teve um filho antes mesmo de se casar, numa época nada liberal.

Ney e Emilinha não se tornaram amigos íntimos, mas mantiveram o afeto e a admiração mútua. No início do ano, ele registrou sua participação na faixa Não existe pegado ao sul do Equador, presente em Emilinha Pinta e Borda, o primeiro disco da cantora desde 1981. A eterna reverência de Ney às estrelas do rádio – "fazem parte de minha formação musical desde a infância", diz ele –, já rendeu um disco dedicado ao repertório de Carmem Miranda, a mesma que lançou Emilinha como crooner do Cassino da Urca, em 1939.

As 19h30 ela adentrou o recinto, esplendorosa como consta em seu currículo. E bela. "Não repara na casa que é simples como eu", avisa ao visitante ilustre. "Não botei perfume por sua causa. Você não é alérgico?". Alérgico ou não, Ney confirmou e agradeceu. Em qualquer das hipóteses, não contrariaria um sorriso tão radiante como nas primeiras fotos que ele mesmo aprendeu a admirar nas revistas das rádios quando menino. Estava estabelecida a conexão que daria à noite o doce sabor das trocas de confidências, afagos, visões de mundo, da intimidade que só compartilham os amigos que muito possuem em comum. Cada um à sua maneira, ajudaram a escrever a história da música brasileira.


[29/AGO/2003]


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