Memória do mestre

[29/AGO/2003]

Poucos compositores foram tão influentes na evolução da música brasileira quanto Radamés Gnatalli. Tom Jobim, o maestro soberano da música brasileira, se sentia súdito de Radamés.

O crítico musical e escritor Roberto Moura é testemunha:

"A influência de Radamés se verifica mesmo de forma indireta, pois ele foi uma das maiores referências da obra de Tom Jobim, que hoje norteia a produção musical no país. Além de ser um compositor extraordinário, Radamés criou arranjos irretocáveis e levou o rigor erudito para a música popular".

O saxofonista e clarinetista Paulo Moura, que gravou um álbum dedicado à obra do compositor e incluiu o choro Remexendo, de autoria do maestro, em seu último álbum, Estação Leopoldina, não esconde sua admiração.

"O que eu mais gostava nele era a brasilidade de suas composições, que são lindas, prazerosas de tocar. Costumo comparar o seu trabalho ao lado do percussionista Luciano Perrone, em termos de importância para a música nacional, à parceria entre o clarinetista Benny Goodman e o baterista Gene Krupa, que transformou o jazz nos anos 30".

O músico e escritor Henrique Cazes, que participou da segunda formação do grupo de choro Camerata Carioca, formado sob inspiração de Gnatalli, lembra do maestro como um espírito jovial.

"O Radamés era extremamente jovem, gostava de tocar com gente mais nova e detestava assuntos saudosistas".

Autor do livro Suíte gargalhadas - Cento e tantas histórias engraçadas sobre música e músicos , que contém boas histórias de Gnatalli, o cavaquinista recorda um de seus vários encontros com o maestro:

"Ele estava entusiasmado com Indiana Jones e os caçadores da arca perdida, dizia que Steven Spielberg era formidável. Ao mesmo tempo, tinha uma cultura fabulosa, um conhecimento teórico que extrapolava os campos da música".

Com planos de fazer um CD dedicado a Radamés, a cantora Olivia Byington lembra que Radamés, apesar da fama de sisudo, era extremamente bem-humorado.

"Eu o conheci na casa do Tom Jobim, que tinha verdadeira idolatria por ele. Estávamos ensaiando para a apresentação de entrega do Prêmio Shell em 1982, e o Radamés tinha uma frase célebre, com a qual sempre encerrava os ensaios: 'Vamos acabar logo com isso para tomar um chope'".

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