Compositora e violonista, Isabella Taviani apresenta seu trabalho no Teatro Rival BR
Foi no banheiro de empregada, pequenininho e afastado dos outros cômodos da casa do pai, que a cantora, compositora e violonista Isabella Taviani escreveu quase todo o repertório do disco de estréia. "Eu tocava a madrugada inteira naquele banheirinho mínimo. Escrevi muitas músicas ali. Apesar do calor, a acústica era ótima", lembra, com um sorriso semi-adolescente na boca. O primeiro hit desta carioca de 34 anos nasceu assim, numa noite de insônia. "Quando fiz
Foto Polaroid fiquei louca por ela. Toquei até amanhecer. É minha música mais representativa", diz.
Aloysio Reis concorda. O empresário está apostando alto no talento de Isabella, artista exclusiva da sua gravadora, a simpática Green Songs. E olha que Aloysio, ex-presidente da EMI do Brasil, entende do riscado. Isabella reúne aqueles elementos que apontam para o sucesso nos dias que correm: Vozeirão grave, interpretação visceral (como nós, críticos, gostamos de adjetivar) e composições super bonitas, versando invariavelmente sobre o amor. O disco foi gravado entre novembro e dezembro do ano passado, com o auxílio de craques,
como Marcos Suzano na percussão, Vittor Santos no trombone e Torcuato Mariano jogando nas onze.
Torcuato assumiu violões, guitarras, programações eletrônicas e produziu o álbum, que a cantora ainda não conseguiu parar de ouvir. "Em casa, no trânsito, me ouço o tempo todo", entrega, sem uma sombra de estrelismo. Pelo contrário.
Isabella é gente como a gente, que ainda se assusta quando um fã pede sua palheta de recordação. Ela ainda está revirando o disco. "Encontro momentos muito bons e detalhes que poderiam ter funcionado melhor", avalia. Um exemplo? Acha que Olhos de escudo tem letra demais. "É uma música alegre, que encerra meus shows e vejo que as pessoas aprenderam o refrão, mas têm dificuldade para decorar o resto. Eu podia ter economizado nas palavras".
Bobaaagem... A música é bacanérrima e ganha a platéia logo nos versos iniciais: Ei, volte aqui, não tenha medo/ Os meus olhos não escondem segredos. Tire a primeira estrofe quem nunca, apaixonado, quis atravessar o escudo de um coração. "O público se identifica com minhas músicas. Eu componho e canto de forma muito verdadeira", afirma. Cerca de 85% das músicas são inspiradas nas histórias de amor que protagonizou. "Mas há um tango no disco, Ivete, que está nos 15% que não coincidem com a vida real", comenta, rindo um bocado.
Ivete é de uma sensualidade sem véus, que nos remete a algumas obras de Chico Buarque. "E para não dizer que estou chamando as Ivetes de prostitutas, coloquei também o nome da minha mãe, Thereza, entre as quatro personagens". Isabella conta que viveu as agruras da sombria Pontos Cardeais. "Engraçado foi meu pai entrando no meu quarto aos prantos. Eu levei um susto, até ele explicar o motivo das lágrimas. Disse, enxugando os olhos: 'minha filha, você deve ter sofrido muito para ter feito uma música assim'", diverte-se a cantora.
Ela não vê sentido num show igualzinho ao disco. "Que graça tem chegar no palco e copiar a gravação? Prefiro pisar na corda bamba e correr o risco de errar, mas interpretar de acordo com a emoção daquele instante", filosofa. Bateu a
curiosidade? Vá assistir Isabella Taviani nesta terça-feira, 8 de julho, no Teatro Rival BR. O roteiro prevê as metafóricas Digitais, que tocará nas rádios muito em breve, e Canção para um grande amor. A balada eletrônica De qualquer maneira, mais conhecida como Peixinho, também está na seleção, assim como a imperativa O Farol e o estilizado Samba da Verdade. Onze das 13 faixas são inéditas e autorais.
Duas canções antigas, que foram regravadas neste álbum, constam no programa do recital: Acontecimento, um lado B do Hyldon, e Momentos, sucesso de Joanna resgatado do segundo álbum da artista, lançado em 1980. Castelo de farsa, de própria lavra, é a música que aproxima o timbre dela ao de Ana Carolina. As comparações não incomodam (mais) Isabella. "No início fiquei até muito preocupada porque os jornalistas escolhiam o caminho mais simples para analisar o meu trabalho. Eles apontavam as semelhanças, mas esqueciam de falar das diferenças", reclama.
Depois de uma audição completa do disco, são justamente essas diferenças que se evidenciam. A voz de Isabella Taviani é mais melódica e a interpretação menos pretensiosa. Talvez até mesmo por causa da idade. Outra coisa: Ela não inventa moda na hora de cantar as músicas dos outros... A Ana Carolina tem composições muito legais, mas às vezes peca por gritar demais e cantar tudo muito parecido. Há quem diga que o segundo disco dela é quase uma cópia do primeiro. Vamos esperar pelo próximo trabalho de Isabella.
Naturalmente sem data para sair, mas certamente pela Green Songs, o álbum já é assunto na gravadora. Isabella está trabalhando lentamente na bolacha, que terá parcerias com Torcuato e com uma artista sensacional (você ainda ouvirá
falar muito nela!), chamada Marcela Biasi. Vem coisa boa por aí. O samba-funk Já vai tarde tem tudo para entrar no repertório. Ah, é certa a inclusão de uma balada pop ainda sem título, que está solta no finzinho deste disco atual, servindo como uma espécie de 'cenas do próximo capítulo'.
Passados alguns minutos do que seria a última faixa, há um fragmento de ensaio. Deixado ali de propósito. É claro que houve gente escrevendo à gravadora e o pessoal da fábrica chegou a mandar parar as máquinas quando notou o "erro" no CD matriz. "Eu sempre gostei de colocar os fones no ouvido para reparar na respiração da cantora, nas falhas dela. Esse é o grande barato. Então, para me aproximar do público, achei legal deixar essa canção inacabada, sem equalização e com todos os meus desafinos", comenta, agora com um sorriso maroto. Fazendo coro à saudação de Jamari França, no release: Bem vinda, Isabella!
SERVIÇO:
Local: Teatro Rival BR
Endereço: Rua Álvaro Alvim, 33, Centro
Data: 08 de julho de 2003
Horário: 19h30
Ingressos a R$ 24 (desconto de 50% para os 400 primeiros
pagantes)