Time que está ganhando não se mexe. Que tal seguir a receita que rendeu oito Grammys e 25 milhões de cópias vendidas? Carlos Santana não bobeou e repetiu o esquema vitorioso de seu último CD,
Supernatural, o primeiro que fez pela gravadora Arista. Em
Shaman, o guitarrista contou mais uma vez com a ajuda providencial do produtor Clive Davis, que o captou para o selo. O lançamento, que está desembarcando por aqui, inclui mais uma dose de colaborações estelares. Substituição: sai Lauryn Hill, Eric Clapton, Dave Matthews, Eagle-Eye Cherry e Wyclef Jean; entra Macy Gray, Seal, Dido, P.O.D., Placido Domingo e Chad Kroeger.
A nova turma consegue segurar bem a peteca deixada pelo time de feras anterior, com boas participações e composições. Mas se uma lupa fuxicasse mais de perto os dois trabalhos a situação se complicaria para Shaman. O primeiro single do disco, a insossa dance The game of love, cantada por Michele Branch, não chega nem perto do peso de Maria, Maria e Smoth - os dois mais bem-sucedidos hits da carreira do guitarrista -, que deram asas para Supernatural atingir voôs tão altos.
O que não quer dizer que o novo CD não apresente boas músicas individualmente. E redundante seria dizer que os solos de guitarra de Santana continuam memoráveis, alguns de puro feeling e êxtase, e outros dispensáveis. No entanto, assim como o anterior, unidade não é o forte do disco, que atira para o pop, dance, rock, música latina e jazz e enverga a cada estilo das personalidades convidadas (e são muitas!).
O destaque positivo fica por conta de Amoré (sexo), sob os cuidados da voz talentosa de Macy Gray, com uma batida cativante que integra o sotaque mexicano de Santana com o suingue afro-americano da cantora. Em America, mais um casamento certeiro. Os cristãos do P.O.D. - uma espécie de Atletas de Cristo do hard-rock de San Diego - compuseram a gritante e roqueira faixa, sendo que o vocalista e o guitarrista do grupo, Sonny e Marco, ainda deram uma mãozinha para Santana. Seus versos são poderosos e políticos: América, você vai voltar para mim, por favor baby?/eu acreditava em você até que você foi embora/simplesmente fugiu/eu achava que nosso amor nunca iria mudar/(...)agora eu percebo/eu sinto de novo as mesmas velhas mentiras.
Santana patina quando incorpora os vocais de Musiq, em Notinhg at all, e de Arnthor, em Let me love you tonight, gerando algo entre Enrique Iglesias e Backstreet Boys. Seal, Dido e Placido Domingo também parecem meio perdidos, com boas canções, mas que não se integraram com a guitarra do mexicano.
O guitarrista se sai melhor ao acompanhar a melancólica Sideways (com Clarence Greenwood, do Citizen Cope) e também quando se aproxima de suas raízes latinas, com as congas da época de sucessos seus como Oye como va e Black Magic Woman. Neste caso estão Adouma (da beninense de coração brasileiro Angélique Kidjo) e a ótima Foo Foo. Tempos em que Santana ainda era o nome de uma banda, e não apenas de um guitarrista, que tinha passado por Woodstock e que mais tarde (já em carreira solo) chegou a dar uma canja por aqui em 1991, no Rock In Rio II. Ah sim, naquela época o mexicano preferia vocalistas que cantassem em espanhol e não em inglês. Sem saudosismo, parece uma eternidade.
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