A intuição de Pedro Mariano

Se o astral do ambiente não estiver dos melhores, Pedro Mariano nem pensa duas vezes: vai embora mesmo que tenha acabado de chegar. "Eu sou um cara intuitivo", afirma. É bem verdade que a arte responde por uma boa percentagem desta sensibilidade. "A música aguça a minha intuição, sim", admite. Pedro, 27 anos, herdeiro da musicalidade do pai, o tecladista César Camargo Mariano, e das feições da mãe, a cantora Elis Regina, está lançando o álbum Intuição, pela gravadora Trama.

Este disco, o terceiro de uma carreira de sete anos, é a segunda investida do empresário João Marcello Bôscoli no irmão (João é filho do primeiro casamento de Elis, com o compositor Ronaldo Bôscoli). Voz no ouvido, lançado em 2000, rendeu ao cantor um disco de ouro pelas 100 mil cópias vendidas e uma indicação ao Grammy Latino. Fez a estréia fonográfica em 1997, com o álbum Pedro Camargo Mariano, prensado e distribuído pela Sony Music.

Em Intuição, o cantor (que suprimiu o Camargo do nome artístico em virtude da quantidade de "camargos" que surgiram no cenário musical) revela alguns trunfos. Um deles é a participação de Zélia Duncan no clássico jobiniano Você vai ver, de 1980. "Pedro é um cara extremamente musical, preciso e cheio de swing", derrete-se a cantora. "Embora tenhamos opções estéticas distintas, nos encontramos deliciosamente no ofício de cantar", avalia Zélia. Das releituras, a faixa é uma das prediletas de Pedro.

"Essa música vem me namorando há tempos. O João Gilberto gravou no último álbum dele, Voz e Violão, que é produzido pelo Caetano Veloso, e cantou num show que fez em São Paulo. Meu irmão estava na platéia e achou que a música tinha tudo a ver comigo. Eu peguei a letra na internet, mas não conhecia a melodia. Falei com meu pai que não só sabia, como registrou no CD dele com a Leny Andrade. Ele me mandou o disco e o encantamento foi instantâneo", diz. "Pensei na Zélia na hora. Fazia muito tempo que queríamos gravar juntos", comenta.

Revirando long plays antigos, Pedro encontrou uma lado B do cantor, compositor e guitarrista Lulu Santos. De repente (de Lulu e Nelson Motta) é, literalmente, a música de abertura do lado B do disco Normal (Wea, 1985). "A sonoridade mudou completamente. Para conseguir este resultado, eu desdobrei o andamento e reduzi a velocidade", explica. E um hit dos anos 80 de Cazuza, Dé e Bebel Gilberto: Preciso dizer que te amo, que ficou conhecida nas vozes de Marina Lima e do próprio Cazuza.

"Gravei essa canção num disco-tributo ao Cazuza, já fora de catálogo. Pensei em registrá-la no Voz no ouvido, mas ela não se encaixava naquele contexto". Ele incluiu uma do Cláudio Zoli com Bernardo Vilhena, Seja melhor, que considera "quase inédita" porque não "aconteceu nas rádios". E depois de passear por criações dos amigos Jair Oliveira, Daniel Carlomagno, Otavio de Moraes, Daniela Monaco e Jorge Vercilo, fecha a bolacha com a surrada e sofisticada 20 anos blues, de Sueli Costa e Victor Martins.

Do roll das inéditas, Pedro destaca 5 discos (Fernanda Takai e John) - "é o meu xodozinho" - e Por amar (Ricardo Koctus). As duas faixas levam a assinatura de integrantes do conjunto Pato Fu. "Eu ficava na fissura de trabalhar em cima de alguma música deles, desde que não fosse manjada. Eles são autênticos demais. E para minha alegria, acabei ganhando logo duas inéditas", comemora.

A próxima parada da turnê de Intuição (que começou no Rio de Janeiro em meados de junho) está definida: será em São Paulo, no dia 20 de julho. Depois, segue para sul, centro-oeste, norte e nordeste do país, nesta ordem, antes de retornar ao eixo Rio-São Paulo, onde Pedro Mariano tem público (feminino) mais do que garantido.

mra@jb.com.br

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[28/JUN/2002]

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