"Zeca é um tesouro artístico nacional e o povo brasileiro sabe disso", proclama Caetano Veloso, no release distribuído para imprensa e assinado pelo baiano, sobre o novo disco de Zeca Pagodinho, "Deixa a vida me levar" (Universal Music). Não precisava de tanto. O respeitável empurrãonzinho na carreira do CD seria dispensável, frente à óbvia constatação de que Zeca Pagodinho não
faz samba: ele
é a própria encarnação do samba, se mantendo nas paradas de sucesso sem perder de vista as raízes e a malandragem típica do gênero essencialmente (e em sua origem) carioca.
E para se manter fiel ao estilo, o sambista busca na inspiração dos companheiros o gás necessário para mais um álbum: das 14 músicas, apenas uma é de sua autoria, ao lado Mauro Diniz, Chove, é o céu que chora. "Tem muita gente para gravar. Não adianta compor dez músicas de olho nos direitos. Nunca vai ficar legal, tem que inovar", explica Zeca, sem se importar em ter de pagar o copyright dos colegas compositores. Muito pelo contrário, ele faz questão de ajudar: "A rapaziada tem que ganhar um dinheirinho. Dá pra pintar o barraco, comprar um carro de seis contos, uma geladeirinha nova...".
A rapaziada, como sempre, é de alto nível: gente de peso como Arlindo Cruz (com Maurição e Acyr Marques, (em Pra gente se amar), Dunga (com Roque Ferreira, em Letreiro), Almir Guineto (com Fernando Boêmio, em Calangueei) e Wilson Moreira (em Belo encontro) - além dos parceiros de sempre, como Monarco (com Ratinho, em Amor não me maltrate), Zé Roberto (Meu modo de ser) e Barbeirinho do Jacarezinho (com Luiz Grande e Marcos Diniz, em Caviar). A mistura de gerações e estilos é uma marca de Zeca, que incluiu ainda o samba-enredo da Portela dos anos 50, Riquezas do meu Brasil, de Candeia e Waldir. "Sempre faço isso. Não procuro saber quem é o autor. Se eu gostar da música eu gravo", explica o eclético sambista.
Quem ficou de fora dessa vez foi o apadrinhado Dudu Nobre, e o estreante é Aleandro Dimenor (com Flavinho Silva, em Nêga judite), revelação do CD Quintal do pagodinho, organizado por Zeca. Um disco que foi o xodó do sambista: "Foi um sonho mostrar para o povo as pessoas que me ajudam", comemora, destacando as 80 mil cópias vendidas.
Novo endereço - Depois de 11 anos morando em Xerém, o sambista ainda está se refazendo de um processo traumático: ele é o mais novo morador do Recreio dos Bandeirantas, Zona Oeste do Rio. Não que o novo bairro não o esteja agradando, mas o estilo de vida anterior, mais rural, deixa saudades. Na nova rotina, Zeca Pagodinho já incluiu o sabor do samba e seu modo etílico de viver: um roteiro regado à cerveja dos quiosques da orla, sem direito a mergulho - "não sou chegado a praia", explica -, além de bate-papos animados com a rapaziada, os vizinhos também ilustres Beth Carvalho, Arlindo Cruz e Dudu Nobre.
Prazeres à parte, o novo endereço acabou fazendo com que Zeca trabalhasse mais, um feito e tanto. "Lá eu era muito vagabundo, ocioso. Aqui fico doido para que apareça algo para matar o tempo. Acabo trabalhando mais". Mas o coração ainda está dividido. "Minhas coisas ainda estão lá. Meu cantinho está lá", diz. E lá está também sua escola de música, que atende 300 crianças carentes da região, um projeto que está com seu futuro ameaçado. "Minha escolinha está acabando por falta de verba. Já pedi a Deus e ao mundo. A Prefeitura de Caxias dava dinheiro, mas cortou", lamenta o sambista, que chegou a fazer um apelo no programa do Domingão do Faustão para que uma marca de cerveja apoiasse a iniciativa. "Não deram nem um telefonema!", reclama. O gasto é de R$ 10 mil por mês, inteiramente arcada por ele, um peso ainda maior em suas contas com o novo endereço: "Minha despesa triplicou aqui no Recreio.".
Shows - A nova turnê deve estrear em cerca de um mês, (como sempre) no Rio de Janeiro, porque "o exemplo sai de casa". Um exemplo para as mais de 600 mil pessoas que compraram Zeca Pagodinho ao vivo, para quem está com saudades de um disco de estúdio do sambista - o último foi Água da minha sede" (2000) - e para quem quer chorar, garante ele: "Toda música tem que servir para alguma coisa. A minha serve para alegrar, para chorar, para quem está com saudade, para quem está triste...". E para quem gosta de samba. Dos bons.
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