Lixeiro não, gari. É como preferem ser chamados os profissionais da limpeza urbana. Nesta época, para os melhores entre os melhores, existe um trabalho considerado prêmio: varrer a Marquês de Sapucaí. Acho esse momento deles tão mágico que resolvi experimentar a sensação. Eu fui gari por uma noite de carnaval na Passarela do Samba.
Pela primeira vez em cinco anos trabalhando como repórter no Sambódromo, pude experimentar emoção nunca antes vivida. Fui aplaudido pelo público. Bastava levantar o boné, rodar com a vassoura como porta-bandeira ou então mostrar no pé a força do meu ritmo para obter a resposta das arquibancadas e camarotes.
Meus 62 colegas de trabalho na pista não desprezam essa magia. Segundo eles, é o único momento em que são reconhecidos e aplaudidos. O trabalho é puxado, a comida, servida em intervalos regulares, não é das melhores. E o equipamento de trabalho (calça, camisa, boné e vassoura) até que passou no teste, mas a bota, do tipo borzeguim, tira qualquer calo do compasso.
E as reclamações da categoria não param. Assim que descobriram a minha missão, começou uma cantilena sem fim. Já havia sido alertado sobre esse ''defeito'' da categoria e não levei muito a sério. Mas me enganei. Gari reclama muito. Talvez pelo trabalho insalubre, mas para eles o que falta é dinheiro. Só tive sossego ao prometer que falaria com o prefeito sobre o aumento de salário.
Com a confiança conquistada e já devidamente instruído no manejo da vassoura,o time da limpeza saiu do Méier em direção ao Sambódromo. Incrível como essa turma que ganha pouco mais de R$ 250 líquidos consegue manter o bom humor. Piadas e sambas foram puxados dentro do ônibus. Parecia até excursão de colégio.
Aplausos - Ao chegarmos na Passarela, cerca de duas horas antes do início do primeiro desfile fomos para a pista fazer um teste. Nessa hora, senti a empatia que os garis têm com o público. Fomos ovacionados na entrada aos gritos de ''gari, gari, gari''. Apoio nós tínhamos, mas ainda não era a hora da verdade. Quando a última ala da primeira escola passou pela concentração, entramos na pista.
Nesse momento, senti a pressão do serviço. A pista tem de ser limpa em pouco mais de 10 minutos. Uma linha de garis é formada e todos vão varrendo. Atrás, vai outra parte da equipe, colocando o lixo em caçambas. Uma correria só, mas dá para sambar, ou melhor, não dá para ficar sem sambar. E cada movimento na passarela traz a resposta do público.
Numa dessas varridas, lá pela altura do setor 11, encontrei o prefeito da cidade. Promessa é dívida. Fui até Cesar Maia e lhe falei sobre o aumento dos garis. Como estava vestido como um deles, acho que o deixei assustado com a ousadia. Mas, na noite anterior, eu o tinha entrevistado e ele me reconheceu. Riu e declarou: ''Em março vai sair o aumento dos garis. Eu garanto''. Espero, com essa notícia, retribuir aos rapazes da limpeza a alegria que eles me proporcionaram.
Renato Luiz tem privilégio de usar tênis
Rotina
Limpeza da pista tem seu macete