Jonas Cunha
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Nos bastidores da preparação do desfile de uma escola de samba, a diretora financeira pega um refrigerante no frigobar, acessa a internet para checar o site da agremiação e dá uma pausa para o descanso no sofá da sala refrigerada.
Nos preparativos da concorrente, o carnavalesco se esquiva entre chassis de alegorias e restos de sete carros-fortes repletos de buracos de bala, herança da empresa proprietária do terreno que emprestou o espaço para que a escola não ficasse restrita apenas a sua outra oficina de carros alegóricos, localizada debaixo do viaduto de São Cristóvão.
As duas cenas correspondem aos barracões onde são montados os carnavais de duas escolas que desfilam na Sapucaí competindo pelo título este ano, a bi-campeã Imperatriz Leopoldinense e a estreante no Grupo Especial Paraíso do Tuiuti.
O contraste entre as duas escolas não se resume aos barracões, e está presente em toda a estrutura utilizada para a confecção das fantasias e carros alegóricos. Enquanto a carnavalesca Rosa Magalhães, da Imperatriz, considerada craque na função, vai gastar pelo menos R$ 1,7 milhão para fazer o desfile deste ano, Paulo Menezes, à frente da Paraíso do Tuiuti, trabalha com a calculadora na mão para não gastar nem um centavo a mais do que os R$ 800 mil previstos, menos da metade da quantia disponível para a concorrente.
O orçamento ficou mais apertado porque a Tuiuti, que defende o enredo Um Mouro no Quilombo, precisou fazer um gasto extra de 400 mil em chassis de carros alegóricos para se adaptar ao Grupo Especial, que prevê mais alegorias do que os Grupos A e B, categorias em que a escola desfilava. O total de gastos, R$ 1,2 milhão, foi todo financiado por verbas da Liga das Escolas de Samba e pela Riotur.
Na quadra da bi-campeã, que escolheu para enredo a cana-de-açúcar, a planilha de custos é bem diferente. "Penso no custo dos materiais na hora de criar o carnaval, mas, nos vitrais, por exemplo, fiz questão de usar acrílico", explica Rosa Magalhães, mostrando que, para caprichar, pode se dar a alguns luxos. Utilizando plástico, Rosa obteria um efeito menos autêntico na avenida, mas gastaria menos R$ 35 por metro quadrado, uma economia de R$ 2.500 no final da contas.
"Acrílico e noutros materiais de última geração, sofisticados, nem penso em usar", rebate o carnavalesco da Tuiuti. "Mas sempre dá para acionar a criatividade e, com materiais mais baratos, conseguir um efeito que não deixe nada a dever aos mais caros", garante.
A prima pobre das escolas de samba, que estréia no Grupo Especial em 2001, enfrenta ainda outros percalços que encarecem seu carnaval: "Por não termos barracão, não temos onde guardar o material do carnaval anterior, que as escolas sempre reciclam para economizar. As coisas acabam se estragando", lamenta Paulo.
Salários de dar inveja
Pouco lucro e criatividade
CONTRASTE