Na dose certa, o pecado pode ser uma virtude. Pensando assim, a Viradouro leva à avenida uma visão conciliadora dos sete pecados capitais. Para garantir a condescendência dos mais virtuosos, na representação da fraqueza dos homens diante do pecado mais cometido no carnaval - a luxúria - a escola lançou mão de dois fortes argumentos: Luma de Oliveira e Paula Burlamaqui.
Entre faunos e bacantes, Paula sai como destaque no carro da luxúria, enquanto Luma desfila seus atributos no chão, como rainha da bateria. Responsável pela comissão que ocupa a lacuna deixada pelo carnavalesco Roberto Szanietcky - demitido pelo patrono da escola, José Carlos Monassa -, o diretor de carnaval Heraldo Farias faz mistério sobre a fantasia que a rainha Luma vai usar para ser caracterizada como luxúria.
A tarefa exige cuidado, já que, se errar a mão, o estilista corre o risco de apenas esconder a caracterização que Luma, por obra da natureza, já representa do pecado em questão. Mas Heraldo promete ainda mais sedução no visual da Sra. Eike Batista: "O público pode esperar uma fantasia bem sugestiva. Mas não posso adiantar nada para não estragar a surpresa".
Passistas - A fantasia das passistas foi batizada com um nome que traduz com exatidão o gosto que o rebolado provoca nos gulosos barbados que acompanham o desfile: sabor sensual. A supremacia da luxúria sobre os outros pecados capitais no carnaval pode ser medida pelo tamanho de seu setor no desfile. Enquanto cada um dos pecados tem em média quatro alas, o setor de Luma e Burlamaqui compreende sete subdivisões repletas de foliões animados para tratar de seu pecado predileto.
Mas tanto entusiasmo não deve assustar os mais comportados. Segundo a Viradouro, um pouco de luxúria não faz mal a ninguém. O lema da escola no tratamento dispensado ao enredo é "Abaixo o maniqueísmo", em uma interpretação que prega o equilíbrio para desfrutar dos pecados. "A luxúria ilimitada leva o ser humano à degradação moral, mas o prazer sexual leva à sobrevivência das espécies", defende Monassa na apresentação do enredo que criou.
A ordem na Viradouro é olhar os dois lados da moeda. "Vamos mostrar que a cobiça sem limites pode causar muita destruição, mas também que não ter ambição é ruim para o homem", explica Heraldo Farias.
Preguiça, Ira, inveja e soberba terão o mesmo tratamento no carnaval da escola. A dualidade costura todo o desfile da Viradouro, que reservou espaço no carro alegórico da gula para uma pitada de crítica social. Enquanto na frente do carro dois gigantescos e brilhantes demônios cor-de-laranja convidam para um farto banquete, parte da alegoria exibe um lixão com o desperdício de comida e a fome dos desprivilegiados.
A caracterização lembra bastante o famigerado enredo Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia, criado pelo ex-carnavalesco da escola Joãosinho Trinta para a Beija-flor. Heraldo Farias cantarola o trecho do samba que serve de trilha sonora para o carro: "Tem os que vivem pra comer, tem os que só comem se sobrar".
Uma pecadora assumida