Em dias de intensa folia e um mosaico de manifestações culturais, o carnaval do Recife "mostrou um Brasil que o Brasil precisa conhecer melhor", como afirmou o produtor musical paulista Capuche, trabalhando atualmente com o músico Naná Vasconcelos e que esteve de passagem pela cidade.
No frevo dos blocos, na irreverência das troças carnavalescas, na tradição dos maracatus, afoxés e caboclinhos, entre tantas outras manifestações, o carnaval revelou o jeito de "brincar" e de viver da gente da terra, desde suas raízes.
A movimentação começou cedo no último dia de folia, estendendo-se até a madrugada desta quarta-feira. Pelas ruas do centro do Recife, milhares de foliões se esbaldaram no frevo, foram atrás de trios elétricos, rebolaram ao som dos maracatus. Outros acompanharam as escolas de samba e quase todos vibraram com shows de ícones do carnaval, como o pernambucano Alceu Valença.
No frevo rasgado ou nas marchas de blocos, os grupos tomaram as ruas como se voltassem no tempo, entre fantasias, confete e serpentina. Isto no meio de uma gente deslumbrada com o inusitado espetáculo ou revivendo imagens de carnavais passados. Até faltou espaço para tanta festa. "Foi animado, mas também desordenado e está faltando condições de desfile", reclamava Maria Goret Carminha, 40, coordenadora do Pierrot de São José, bloco lírico que esteve entre vinte outros participantes da apoteose na Praça do Marco Zero.
Por toda parte, se via o colorido das agremiações carnavalescas, num espetáculo cujos personagens nem sempre têm o devido espaço e comemoram quando isto acontece. "Sensacional, adorei bastante e sempre que haja permissão estarei aqui", dizia o chefe do caboclinhos União Sete Flechas, Cândido Ferreira, 59 anos. O grupo com 120 componentes já estava na 11ª apresentação e a festa ainda não tinha terminado.
"Essa parte folclórica é o que mais me interessa e acho que deve ser mesmo realçada no carnaval de Pernambuco", dizia o médico Alvaro Negromonte, 51 anos. Como fizeram milhares de outros moradores da cidade, ele curtia o carnaval no bairro do Recife junto com a família.
Quem veio de longe se espantava com tanta exuberância, como o turista peruano José Lara, 30. "Me impressionou bastante o desfile das diferentes comunidades e essa gente calorosa", revelou.
E houve quem prospectasse negócios, no meio da folia. O empresário Brian Savage, da empresa Saga Rose, sediada no sul da Inglaterra e que trabalha com cruzeiros marítimos, estava no Recife avaliando a possibilidade de incluir a cidade nos seus roteiros. A beleza do que viu deve ajudar na decisão: "A combinação de fantasias e danças num só lugar e muito impressionante", dizia.
Para a gente da terra que prefere ritmos como samba, o carnaval não desapontou. As arquibancadas da avenida Dantas Barreto estiveram lotadas de expectadores como a dona de casa Alzinete Maria dos Santos, 37, que junto com a família torcia pela escola preferida, a Gigante do Samba, destaque do Grupo A.
E o carnaval do Recife foi além dos ritmos carnavalescos. Num espaço privilegiado para a música pop e a música regional, o Festival Rec-Beat reuniu trinta atrações. Desde grupos de forró, como o Serra Véia que fez muita gente dançar agarradinha, até atrações internacionais com a banda Mudhoney.
Uma variedade irresistível para quem não é de cair na folia, como o estudante de medicina Bruno Marcelo Mendonça, 22. "Gosto mais de vir para observar esse carnaval, que, além da festa, é o encontro do povo com sua cultura", ele afirmava, refletindo a opinião de milhares de outros expectadores do carnaval no Recife.