O INÍCIO

A
história de Zico no Flamengo começou em 1967, na escolinha
do clube. Zico foi levado pelo radialista Celso Garcia,
que, convidado por Ximango, um amigo da família Coimbra,
viu Zico arrebentar numa partida de futebol de salão
do River. O garoto marcou nove gols na maiúscula vitória
de 14 x 0. Mas por pouco Zico não foi parar no América,
já que o irmão Edu havia acertado, naquela
mesma semana, tudo com a escolinha do Alvi-Rubro.
A paixão pelo Flamengo falou mais alto. O primeiro
jogo no Maracanã aconteceu três anos depois, ainda
pela escolinha do Flamengo. O ‘violino’ Carlinhos,
que mais tarde viria a ser formador de talentos e
treinador campeão pelo clube, estava se despedindo
da carreira de atleta num jogo entre Flamengo x América,
que terminou empatado em 0 a 0. Zico recebeu de Carlinhos
o par de chuteiras, instrumento de trabalho que era
arma poderosa nos pés do habilidoso e cerebral meia
Carlinhos.
As vitórias já eram uma rotina para Zico, artilheiro
do Flamengo, quando o Brasil conquistava o bicampeonato
mundial no México. Em 71, passou para o Juvenil
e marcou seu primeiro gol diante da torcida que
o consagrou. Foi de pênalti, num empate em 1 a 1
contra o Botafogo. A enorme capacidade de trazer
a responsabilidade para si nos momentos difíceis,
faria de Zico um jogador especial. Mas, curiosamente,
um pênalti ainda marcaria sua carreira. Na Copa
de 86, contra a França, Zico despediçaria uma cobrança
durante o jogo e o escrete Canarinho acabaria eliminado
nos pênaltis, nas quartas-de-final.
GLÓRIAS E FRUSTRAÇÕES
A geração de Zico nasceu junta na Gávea. Adílio,
Andrade, Júnior, Rondineli e cia, que levaram o
Flamengo aos principais títulos da história do clube-
a Libertadores e o Mundial, ambos em 81-, tinham
a cara do clube e um jeito de família. Para Zico,
a formação de uma grande família
rubro-negra foi a essência da conquista. Por isso
mesmo, ele tratou rapidamente de construir a sua
ao lado de Sandra, vizinha e primeira namorada,
que se tornou companheira fundamental nos momentos
mais dramáticos da carreira do Galo. Os frutos de
seu casamento são três filhos: Bruno, Thiago e Júnior.
Os três entraram no mundo da bola e dois deles ainda
jogam. Thiago, o mais novo, atua na equipe de juniores
do Flamengo e Júnior está indo jogar no Tosu, do
Japão. Já Bruno preferiu a música e vai lançar um
cd na terra do sol nascente.
Se
em 71, Zico marcou seu primeiro gol no Maracanã
e começou a experimentar o gostinho de comemorar
uma vitória do Flamengo no campo e não nas arquibancadas,
no ano seguinte viveu a primeira grande decepção,
que ele aponta como a maior. Já começava a jogar
entre os profissionais e voltou para a equipe juvenil
com a promessa de que se continuasse amador disputaria
as Olimpíadas em Munique, na Alemanha. No momento
decisivo, o anúncio da lista, Zico estava fora.
Foi deixado de fora pelo técnico Antoninho. Quase
abandonou a carreira de tão decepcionado que ficou.
Nesse momento, os irmãos o convenceram a seguir
em frente.
Quando começou a jogar na equipe profissional,
rapidamente os títulos foram apagando essa tristeza.
Dois campeonatos brasileiro depois, Zico era vitorioso
apesar do Sarriá da Copa de 82, quando
a Itália eliminou aquela que é apontada por muitos
como a Seleção Brasileira com o futebol mais bonito
da história, e que não foi campeã. O mundo soube
reconhecer isso e propostas não faltaram para Zico
deixar o país. Foi somente pela força do futebol
italiano que o Galo deu um até breve ao Flamengo.
Na segunda proposta dos italianos e, mesmo assim,
depois de frustrada uma operação comandada por Zico
para cobrir a oferta da Udinese, ele seguiu para
entrar na história do futebol europeu, em 1983.
Levou o modesto Udinese a resultados surpreendentes,
encantou os torcedores e infernizou os goleiros
com as cobranças de falta, sua grande arma.
Na volta ao Brasil, duas temporadas depois, aconteceu
aquilo que todos temiam. A truculência de um jogador
do Bangu chamado Marcio Nunes, tirou Zico dos gramados
e o colocou numa rotina de cirurgias e fisioterapia
para recuperar o joelho, obrigações
que o iriam acompanhar até o final da carreira.
Apesar disso, na Copa de 86, Zico estava em campo,
no sacrifício. O penâlti, a decepção e a volta por
cima estariam no roteiro a partir do momento em
que foi ao México.
No Flamengo, ainda no ano de 1986, Zico voltou
a brilhar e, mesmo longe das melhores condições,
foi o maestro na conquista do título nacional de
1987, contra o Internacional, em pleno Maracanã.
Carlinhos, aquele mesmo que cedeu sua chuteira 17
anos antes, estava lá, treinando o Flamengo. Reconhecendo
o sacrifício de Zico, a torcida que lotou o Maracanã
na final, não cansou de gritar após o jogo contra
o Inter: ‘Hei, hei, hei... o Zico é nosso rei’.
E ele foi obrigado a voltar do vestiário após o
jogo para retribuir o carinho.
O FIM DE UMA ETAPA
O
momento de parar se aproximava para marcar o fim
de uma fase. No competitivo e muitas vezes violento
futebol brasileiro, já não dava mais para o Galinho,
que ainda jogou e foi campeão da Taça Guanabara
de 89 e 90. Uma rápida passagem pela política, quando
Collor foi eleito presidente, e marcas definitivas
no esporte. Apesar do período conturbado, Zico,
alheio a um outro jogo que estava sendo disputado
nos corredores de Brasília, plantou a semente de
uma lei que hoje dá passe livre aos atletas, entre
outras mudanças significativas no esporte nacional.
No mesmo ano, vira presidente de clube ao criar
o Rio de Janeiro, que depois teria de mudar para
CFZ do Rio. Paralelamente a criação do clube, Zico
colocou em prática o sonho de um centro de treinamento
com toda a estrutura para a formação de craques.
Localizado na Barra da Tijuca, num terreno de 40
mil metros quadrados, foi inaugurado o Centro de
Futebol Zico. A péssima administração do futebol
carioca o obrigou a abortar o sonho de um time profissional
competindo no Estadual, mas o CFZ funciona normalmente
nas categorias de base e tem jogadores profissionais
nos principais clubes do Rio e no CFZ de Brasília,
franquia de sucesso e que busca uma vaga na Série
C do Brasileirão.
Em 91, Zico assina contrato de três anos com o
Sumitomo, do Japão, para um trabalho de desenvolvimento
do esporte no país. E os três anos se multiplicaram
de modo que Zico hoje é Jico san. A família
está estabelecida nos dois países e o Galinho arranha
um japonês. Para se ter uma idéia, no Brasil a despedida
de Zico foi um show no Maracanã, em 1990. No Japão,
a homenagem foi um espetáculo impressionante com
tecnologia, calor humano e o reconhecimento de um
trabalho que ainda não terminou por lá. Zico quer
levar a seleção japonesa a um nível de profissionalismo
que possa colher frutos no futuro.