Bolívar Torres, Jornal do Brasil
RIO - Com o fim de 2008 termina também a celebração do cinqüentenário da bossa nova. Ou não. Os shows, com as polêmicas que os cercaram, ficaram no ano passado, mas uma dúvida permaneceu: justamente a data da própria origem do movimento musical.
No Brasil, estabeleceu-se que 1958 é o ano em que nasce oficialmente a bossa nova, por causa dos lançamentos do LP Canção do amor demais e do compacto Chega de saudade.
O primeiro álbum trazia canções de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, com arranjos do próprio Tom. Mas a batida inovadora de João Gilberto, que se tornou síntese do estilo musical, aparece apenas em duas faixas, Outra vez e Chega de saudade.
O músico, aliás, limita-se ao instrumental, cedendo seu canto uniforme, sem vibrato, ao vozeirão imponente de Elizeth Cardoso, nada bossa nova. Em 1959 chegou o momento do reconhecimento e das primeiras controvérsias. Mais do que isso: é o ano de lançamento do primeiro álbum de João, Chega de saudade, que dessa vez canta e toca em todas as faixas.
– A primeira etapa é a do dado histórico, concreto da bossa nova, que acontece em 1958 – argumenta o pesquisador musical Ricardo Cravo Albin.
– A segunda, que se inicia em 1959, é a do reconhecimento e divulgação.
Acredito que 1958 é o ano em que a bossa nova é historicamente lançada, em função do álbum, mas também por causa do encontro da santíssima trindade, Tom-Vinicius-João. Mas se 1958 viu o nascimento da bossa nova, 1959 trouxe a consolidação do gênero, e também gerou polêmicas.
O compositor Carlos Lyra, que assina algumas composições do álbum Chega de saudade, como Lobo bobo e Maria ninguém, não tem dúvida: a história da bossa nova nasce oficialmente em 1959, graças ao álbum de João.
– Com certeza, o ano-marco foi 1959, o do LP, e não 1958, o do single ou o da Elizeth, porque o LP contém todas as informações relativas à bossa nova: as duas duplas de compositores, e não uma só, estão presentes, além das versões bossa nova de Ary Barroso e Dorival Caymmi, sem mencionar que o mundo tomou conhecimento da bossa nova por este LP e por nenhum outro disco.
Alguns artistas, como Roberto Menescal, afirmam que o estilo de cantar de Elizeth não se enquadrava na bossa nova. Lyra acredita que as participações de João no álbum Canção do amor demais representa parcialmente o movimento, pois se limitam ao instrumental.
– Agora, o que marca a bossa nova, apesar da batida de violão e do indiscutível talento único de João Gilberto, é a composição e não a interpretação porque a composição vem antes da interpretação e quem interpreta interpreta alguma coisa – observa Lyra.
– Aliás, o violão de João Gilberto no disco da Elizeth não é suficiente para caracterizá-lo como marco da bossa nova. Está faltando, no caso, a voz do João que, somada ao violão, é o que dá a interpretação característica do gênero.
Roberto Menescal prefere não definir um ano-marco. Ressalta que, além de 1958 e 1959, outras datas poderiam ser escolhidas
– Como estava presente em todos esses momentos, fica difícil para mim apontar uma data – admite.
– Aqui no Brasil escolhemos 1958, mas há muitas interpretações. No Japão, por exemplo, eles contam 57, ano em que pela primeira vez alguém nos chamou de bossa nova. Japonês está sempre adiantado mesmo...
Menescal lembra que, por outro lado, em 1960 João Gilberto, Johnny Alf, Claudette Soares e Os cariocas fizeram o show O amor, o sorriso e a flor, em que se apresentaram, pela primeira vez, com a frase: “Este é um show de bossa nova”.
– E ainda há uma corrente mais radical que defende 1962, quando ocorreram os shows do Carnegie Hall como o ano-marco – acrescenta Menescal.
– A partir daí a bossa ganhou projeção internacional. Se você for comemorar cada data destas não pára nunca.
O compositor lembra que teve um ano cheio graças ao cinqüentenário. E garante que, se depender dele, a festa continua.
– As datas vão surgindo e eu vou aceitando. O importante é comemorar, não importa o ano – defende.
– Em 2008, participei de quase 112 shows. Quase uma Ivete Sangalo. Foi incomum, mas acho que esse ano vai continuar puxado. Já recebi vários convites.
Quando o álbum Chega de saudade foi lançado, Marcos Valle tinha 15 anos. Foi seu primeiro contato com a bossa nova. Em 2008, lançou com Carlos Lyra, João Donato e Roberto Menescal o disco Os bossa nova, que reúne pela primeira vez os quatro artistas.
– Fiz questão de lançar o disco em 2008 porque, para mim, foi o ano correto para comemorar – opina Valle.
– Não só pelos disco, mas também pelos shows e toda a divulgação que resultou.
[20:06] - 03/01/2009 -
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