Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil
RIO - Aos 78 anos, Clint Eastwood desfruta da confortável posição de fazer o que bem entende na indústria cinematográfica, tal qual os grandes mestres da era de ouro de Hollywood.
E A troca, exibido no Festival de Cannes do ano passado, que chega ao circuito carioca na sexta-feira, é prova concreta disso. Embora mais novo do que seu conterrâneo, James Gray, 39, deixou claro em Two lovers, seu terceiro longa-metragem, também lançado em Cannes, mas ainda sem data de estréia no Brasil, que prefere seguir a escola clássica narrativa hollywoodiana a sucumbir aos delírios da era digital.
No novo filme de Eastwood, os (poucos) efeitos especiais são usados em nome do realismo.
Ambientado na Los Angeles dos anos 20, A troca é um drama de época no qual o mais importante é o tom emocional da história e não a reconstrução detalhista de uma era.
Angelina Jolie interpreta uma mãe solteira assombrada pelo desaparecimento do filho pequeno. Depois de meses de buscas infrutíferas, a polícia, para abafar o caso, lhe devolve uma criança que não é a sua.
O caso real, recuperado em livro pelo jornalista J. Michael Straczynski, estava ligado a um assassino serial e ajudou a desmascarar a corrupção do departamento de polícia da época.
O conceito de verdade e sua relatividade, expostas no episódio, ganharam a atenção do diretor.
– A verdade é o mais importante componente de uma história e contá-la é uma das mais importantes coisas para um ator. Ser verdadeiro é a maior virtude que podemos encontrar no planeta, e é o que torna todo drama interessante – diz Eastwood ao Jornal do Brasil, que volta ao universo dramático de Sobre meninos e lobos (2003), no qual a violência contra uma criança afeta toda uma comunidade.
Opressão da mulher
Em A troca, o desaparecimento do garoto está no centro da problemática de uma cidade corrompida. De quebra, revela a opressão à mulher na época.
– O comportamento da força policial exemplifica como a mulher era tratada no início do século passado. A personagem não é casada, tem um filho e, por isso, não é tratada seriamente – explica o diretor.
– Aquilo me sugeriu filmes como Obsessão (1944), com Ingrid Bergman, que no filme de George Cukor vivia uma situação similar. Até ela mesma se questionava se não estava ficando realmente louca por não reconhecer o filho na criança que a polícia devolveu.
Como realizador, Eastwood se pauta pela escola dos grandes autores do passado, mantém-se refratário às interferências de executivos e pesquisas de público.
– Gosto particularmente do personagem do diretor em Coração de caçador, que lancei em 1990, e que foi inspirado em John Huston (1906-1987). Ele diz ao roteirista dele: “Quando você fizer um filme, não pense nas pessoas que irão assisti-lo, faça-o à sua maneira e permaneça fiel a você mesmo”.
Eastwood não acredita em modismos.
– Detesto ser um seguidor de tendências. Quando fiz Os imperdoáveis, que me deu meu primeiro Oscar como diretor, ninguém acreditava mais no western tradicional. Em Hollywood, hoje, todo mundo acha que sabe o que o público quer ver – analisa Eastwood.
– Lembro das dificuldades que enfrentei para fazer Menina de ouro, outro filme premiado. Quando apresentei a idéia à Warner, disseram que um filme sobre boxe com uma garota não era uma boa idéia. Depois, a Warner cedeu, sob a condição de que fosse um filme barato. O irônico é que eles me ofereceram um contrato parecido com o do primeiro filme que dirigi, Perversa paixão (1971): nenhum salário, ganharia uma porcentagem da bilheteria. Disse para o meu agente:
- Voltamos aonde estávamos 30 anos atrás!.
Dieta de bobagens
Admirador de François Truffaut, Alfred Hitchcock, George Cukor e outros mestres da narrativa, Gray não só concorda como afirma que as últimas três décadas foram “lamentáveis” para o cinema.
– Confesso que sinto pouca admiração pelo que tem sido feito no meu país nas últimas décadas. Os estúdios impuseram ao público uma dieta de filmes algodão-doce, bobagens que oferecem uma visão fast–food da vida. Eu me vejo mais ligado à tradição do cinema americano da era de ouro – conta o diretor de Os donos da noite (2007) ao Jornal do Brasil.
– Os negócios mudaram a indústria completamente. Os diretores deixaram de ser a força criativa do filme e o cinema ficou orientado cada vez mais para o blockbuster. A camada extra de ternura de uma história se foi.
Two lovers descreve o sofrido triângulo amoroso formado por um jovem depressivo (Joaquin Phoenix), a vizinha neurótica (Gwyneth Paltrow) e a filha boa-moça (Vanessa Shaw) dos amigos do pai dele. É um drama sem artifícios de câmera, centrado na ambigüidade dos personagens e na complexidade da relação entre eles.
O diretor é entusiasta das tramas multifacetadas de outrora, que fizeram de produções como E o vento levou obras de apelo popular.
– Hollywood já foi maravilhosa em termos de finais complexos e de narrativa elaboradas. Tudo isso acabou. As multinacionais compraram os estúdios e hoje temos coisas como Homem de Ferro e uns filmes de arte que não têm ligação emocional com o público – acusa Gray.
– O problema é que não há meio termo. Os americanos perderam o músculo de contadores de história.
[19:52] - 03/01/2009 -
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