Myrna Silveira Brandão *, Jornal do Brasil
RIO - Diplomata brasileiro e alto comissário para direitos humanos da ONU, Sérgio Vieira de Mello foi um profissional exemplar que pôs seu talento e capacidade de negociação na busca dos direitos fundamentais, da paz e da dignidade humana.
Em 2003, foi indicado pelo então secretário-geral Kofi Annan para ser representante especial da ONU no Iraque, onde morreria em 19 de agosto daquele ano num atentado terrorista à sede da organização em Bagdá.
A vida e a trágica morte de Vieira de Mello inspiraram o diretor americano Greg Barker (Ghosts of Rwanda) a realizar o documentário Sérgio, que terá estréia mundial no Festival de Sundance – de 15 a 25 de janeiro em Park City, Utah (EUA) – na principal mostra competitiva do gênero.
Baseado na biografia Chasing the flame, da jornalista Samantha Power (editado no Brasil pela Companhia das Letras no ano passado com o título O homem que queria salvar o mundo), e produzido por John Battsed (Um dia em setembro, de 1999) e Julie Goldman (Devil's playground, de 2002), o filme segue a extraordinária carreira do brasileiro, que durou 34 anos desde sua atuação nas zonas de conflito da África e sudeste da Ásia até o Oriente Médio, interrompida brutalmente após a explosão de um carro-bomba estacionado em frente ao hotel que servia de embaixada provisória da ONU no Iraque.
– Sou americano, mas passei a maior parte da minha vida adulta vivendo fora do país. Para mim, Sérgio era um verdadeiro cidadão do mundo, que incorporava um idealista do qual hoje necessitamos desesperadamente – enaltece Barker, conhecido pela participação em Frontline, um dos melhores programas jornalísticos da TV americana.
Com entrevistas e depoimentos de um seleto grupo de seus mais próximos amigos e colaboradores, intercalados com assustadoras imagens filmadas no dia da explosão, o documentário recupera uma história de desafios, sucessos e tragédia.
– Enquanto investigava a história de Sérgio, eu me dei conta que ele tinha uma bagagem de 30 anos vivendo e pensando sobre os complexos assuntos globais que hoje encaramos – frisa o documentarista.
– Tinha também uma habilidade única para ir aos lugares mais perigosos do mundo e dialogar com os piores criminosos de guerra e, de alguma forma, proteger as vidas de pessoas comuns às quais ele devotou sua vida. Ele é um herói dos nossos tempos, a sua história merecia ser contada.
A biografia de Samantha Power despertou o interesse do diretor para a trajetória do diplomata, embora a força do filme seja seu próprio mergulho na história do brasileiro.
– Utilizei a extensa pesquisa de Samantha como ponto inicial, mas para mim a única maneira de trabalhar era imergir no material e descobrir a história pelas minhas próprias fontes – recorda Barker, que não teve dificuldades para conseguir os depoimentos dos amigos e profissionais que trabalharam com Sérgio.
– É parte do meu trabalho ganhar a confiança dos entrevistados e eu assumo essa responsabilidade seriamente. Sempre explico com clareza o que será o filme e estou sinceramente agradecido por tantas pessoas terem dividido suas memórias comigo.
Investigação do atentado
O documentarista aponta como diferencial do longa a diversidade dos depoimentos de quem conheceu o diplomata de perto:
– Sérgio era realmente um homem de personalidade complexa, o que fazia dele uma figura ainda mais fascinante. Algumas dessas nuances estão refletidas no filme.
O diretor procurou incluir no longa entrevistas que ajudassem a esclarecer fatos desconhecidos sobre o atentado e os riscos que a missão envolvia.
– Minha equipe e eu passamos muito tempo investigando a explosão e especialmente a razão de certos fundamentalistas islâmicos sentirem tanta hostilidade pela ONU e sua missão no Iraque – destaca.
– No filme, há uma entrevista com um amigo do terrorista jordaniano que se responsabilizou pelo ataque.
O diretor não acredita que filmes como o seu possam alterar a realidade dos conflitos globais, embora confie no poder que têm de mudar o pensamento da sociedade.
– Outro dia mostrei o filme para alguns amigos, que não sabiam nada sobre o Sérgio. Depois eles me disseram que não conseguiam tirar a história da cabeça – conta Barker.
– Minha esperança é que o filme não apenas toque as pessoas no nível emocional, mas também as faça refletir sobre como Sérgio encararia e lidaria com alguns dos problemas que vemos hoje no mundo. Para mim, este filme é, em última análise, a respeito da força de resistência do espírito humano.
* Especial para o Jornal do Brasil
[19:06] - 03/01/2009 -
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