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Corrêa vence e se fortalece na PF

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - A solução política dada pelo governo para abafar a crise entre os órgãos federais de segurança fortaleceu o delegado Luiz Fernando Corrêa, o grande vencedor da guerra travada nos últimos quatro meses entre a Polícia Federal e Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Profissional, discreto e gestor de visão política, Corrêa esperou que a crise caísse em seu colo para consolidar seu estilo: referendou, sem obstáculo, a entrega da vaga de adido policial em Portugal ao delegado Paulo Lacerda como "contribuição" para superar o impasse gerado pela Operação Satiagraha e pela denúncia de grampo no telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

– O Luiz Fernando é forte no governo – resume o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), Marcos Wink.

A entidade dá apoio crítico ao diretor da PF, mas reconhece que ele conta com denso respaldo dentro da corporação, um fato raro em se tratando de um órgão politizado e impregnado por rixas internas.

– Ele nunca cobrou da gente nada que não tenha sido o primeiro a dar exemplo – diz o delegado Roberto Troncon Filho, chefe da diretoria de Crime Organizado do DPF.

Nos dias que antecederam o anúncio oficial de exoneração do ex-diretor da Abin Paulo Lacerda e sua nomeação como adido, eram fortes nos bastidores os rumores de uma solução governamental que ficou conhecida como "caidinha casada".

Traduzindo: a exoneração de Lacerda da Abin e Luiz Fernando Corrêa da PF para apaziguar todos os grupos. Soube-se, então, que o diretor da PF tinha mais musculatura política do que aparentava. A recusa à sugestão demonstrou que Lacerda emagrecia no governo e corria o risco de perder seu mais forte apoio, o do ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, a figura mais ouvida pelo presidente Lula quando o assunto é crise.

A força de Corrêa, soube-se então, estava amparada em bases sólidas: embora discreto, sem nunca ter alardeado, é um gestor cujo estilo é visto com simpatia pelo presidente desde que chefiou a segurança do então candidato Lula; goza de amplo apoio dos principais dirigentes do PT e dos caciques dos outros partidos da base aliada e, o mais importante, tem o respaldo de cerca de 90% da corporação que dirige. Entre seus méritos, está o fim das disputas internas, o que empurrava a corporação para crises intermináveis pelo comando da corporação.

Lacerda tinha o apoio dos delegados, mas era bombardeado pelas entidades que representam os agentes e, embora tenha trajetória construída sem manchas no currículo, seu perfil político é conservador. Ninguém tirará do novo adido em Portugal, no entanto, o mérito de, em sua gestão, ter permitido que a polícia chegasse à elite que não era alcançada pela lei.

Em vez de espetáculo, gestão

Gaúcho, aos 49 anos, Luiz Fernando Corrêa é um delegado da ativa que percorreu todos os caminhos dentro do órgão até se transformar num gestor de segurança: foi agente de repressão às drogas, prendeu e trocou tiros com traficantes e virou delegado sem nunca abandonar o estilo cana dura que agrada aos policiais.

Coroou seu novo perfil dirigindo a Secretaria Nacional de Segurança, onde implantou a Força Nacional de Segurança e o Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci), carro-chefe dos programas do Ministério da Justiça. Coordenou a segurança nos Jogos do Pan, no Rio em 2007 e, entre os programas eficientes que introduziu às investigações, está aquele que se transformou no terror dos corruptos: o sistema de grampo telefônico conhecido por Guardião.

No início de 2008, o diretor anunciou o plano Polícia Federal de 2022. Corrêa passou a imprimir uma agenda de discussões internas para estimular o aperfeiçoamento e modernização da máquina. Corrêa é o primeiro a chegar às reuniões e, sempre que vai tornar pública uma decisão importante, toma o cuidado de primeiro anunciá-la internamente, o que fortalece a confiança com os subordinados.

Impessoal, mesmo quando é preciso cortar na própria carne, fez assim no episódio em que ele mesmo se viu obrigado a dar ordem de prisão no número 2 da corporação, o delegado Romero Menezes, seu colega e amigo, agora definitivamente exonerado do DPF.

Corrêa colocou a gestão na agenda da PF e marcou um estilo diferente de seus antecessores, trocando a "espetacularização" por uma ação policial mais consistente e discreta.

A compreensão do processo político talvez seja o que mais pesa contra sua imagem: a elite que há séculos domina o poder acha que ele enquadrou uma PF que estava fora do controle e sepultou a era das operações que não poupavam nem os familiares do presidente da República, ousadia que custou a cabeça do então diretor-geral, Paulo Lacerda.

A assombração produzida pelas grandes operações ainda assusta. Em vez de demitir ou reconduzir Lacerda ao cargo, o governo optou por nomeá-lo adido policial da Embaixada Brasileira em Lisboa.

– Está claro que ele agiu com o respaldo de alguém que é forte no governo e ganhou um prêmio pelos bons serviços – diz o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), da CPI do Grampo.

Fruet suspeita que a resposta seja o silêncio da PF sobre inquéritos que vão dos casos Waldomiro Diniz ao Gampecorp – a transação entre a BrasilTelecom e a empresa do filho do presidente, Fábio Luis Inácio.

– O governo acomodou Lacerda atropelando normas internas da PF e pode ser questionado na Justiça. O cargo é para delegado federal da ativa – diz o presidente da CPI do Grampo, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ).

[18:50] - 03/01/2009 -  RSS