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Rio tem a primeira morte por bala perdida do ano

Fernanda Thurler, Jornal do Brasil

RIO - Apesar do último boletim do Instituto de Segurança Pública mostrar uma queda de 24% do número de casos de balas perdidas na cidade, 2009 não começa com uma boa estatística. Apenas nos primeiros dois dias do novo ano, foram registradas sete vítimas, uma delas fatal.

Irani Pereira da Silva, de 43 anos, foi atingida na cabeça, dentro de casa, em Costa Barros, no subúrbio, no Réveillon. Só na festa da virada na Praia de Copacabana foram registrados cinco feridos. Para o sociólogo Antônio Rangel, coordenador do projeto de Controle de Armas do Viva Rio, esse cenário é uma conseqüência cultural e política.

– A política de segurança pública do Rio privilegia a arma. Hoje os policiais militares estão armados com fuzis. Não se vê mais PM com cacetete. A ideologia da polícia deveria ser matar apenas em última circunstância, mas aqui passou a ser a primeira. O que é ruim porque os nossos policiais são muito mal treinados. Os tiros podem ser sinônimos de balas perdidas – explica Rangel.

Ainda sobre a polícia militar, Rangel acrescenta que o armamento usado por bandidos é vendido pelos homens de farda. O sociólogo destaca que o relatório da CPI das Armas do Congresso Nacional revela o rastreamento de 10.549 armas apreendidas na ilegalidade. Os resultados, infelizmente, são alarmantes: 68% do armamento foram vendidos pela indústria brasileira para o comércio legal e 18% para o Estado.

– De acordo com o Estatuto do Desarmamento é proibido atirar em via pública. Quem descumpre a lei corre o risco de ser preso. Mas, há muita impunidade – lamenta.

O aspecto cultural que Rangel comenta é o da arma como sinônimo de poder. No Brasil, segundo o estudioso, o homem mostra a sua satisfação atirando para o alto, como acontece no Réveillon e em finais de campeonato de futebol.

– É uma prática irresponsável porque pode ferir terceiros, o que geralmente acontece. O Brasil é um país onde há setores da população presos a uma cultura machista rural que valoriza a arma. O que mostra um contraste com o homem democrata e urbano que prioriza a inteligência e não a força brutal – analisa Rangel.

Outros números

Em 2008, foram registradas 178 vítimas em vez das 234 dos primeiros nove meses de 2007. De acordo com o levantamento do ISP, dos 2.931 mortos no estado por tiros, até setembro do ano passado, 11 foram vítimas de bala perdida.

A capital fluminense concentra o maior número de casos, com oito mortes (72,7% do total) e 126 feridos (75,4% do total). A Baixada Fluminense segue a lista.

Entre as vítimas fatais, 36,4%, era adulta, com idades entre 30 e 59 anos. Os adolescentes entre 12 e 17 anos aparecem em segundo lugar, com 18,2% dos mortos. Nove por cento das crianças morreramm por balas perdidas. Os homens são as principais vítimas: 63,6%.

Dos 1.369 baleados sobreviventes, 12,2% foram alvos de balas perdidas. A maioria, 44,9% eram jovens com idades entre 18 e 29 anos.

[22:09] - 02/01/2009 -  RSS