Cultura

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Livro de Manoel Ricardo de Lima une rigor acadêmico com prosa fluida

Carlos Felipe Moisés*, JB Online

RIO - Um dos prazeres propiciados pela literatura é o embrenhar-se numa livraria, garimpar aqui e ali e acabar descobrindo um bom livro. Terminada a leitura, o leitor avisado sabe que nem sempre sua intuição será suficiente para extrair daí todo o proveito possível. Nesse momento, pode entrar em cena o crítico literário, esse leitor mais experiente, capaz de ajudar a tornar mais rica e duradoura a descoberta. Muitos leitores, no entanto, nem chegam a tentar, tão decepcionante costuma ser o jargão incompreensível, tantas vezes pernóstico, da crítica de extração acadêmica; ou a trivialidade que, na imprensa diária, passa por “crítica”. Quando não, a arrogância do crítico – que se atribui importância maior do que a concedida, de má vontade, ao autor criticado – convencerá o leitor de que é melhor seguir confiando na sua própria intuição.

Mas o bom leitor não desiste e continua a garimpar, até que lhe caia nas mãos um livro como 55 começos (Editora da Casa, 224 páginas, preço sob consulta), coletânea de ensaios substanciosos, que cumprem de forma exemplar a função da crítica: dialogar com o leitor, convidando-o a explorar o inesgotável e sempre renovado universo da criação literária.

Nada de jargão, nada que banalize a obra estudada ou a reflexão em torno dela. Nada de arrogância. Para Manoel Ricardo de Lima, literatura é desafio. Ler, com proveito, é manter-se alerta e não ceder à tentação devaneante, autocomplacente, da leitura “ingênua”; é embrenhar-se na obra e ir direto ao ponto: o quê, neste livro, é verdadeiramente relevante? O resultado será um ensaio breve, que expõe ao leitor, sem rodeios, as razões pelas quais a obra em causa é merecedora de sua atenção. Tudo vazado em linguagem fluente, cheia de sabor e inventividade, coloquial sem ser vulgar, inteligente sem ser pedante. Linguagem de crítico-escritor, em suma, capaz de proporcionar ao leitor prazer análogo ao que este experimenta diante de um bom poema ou um bom conto.

A preferência do crítico é pela poesia, gênero ao qual dedica a maior parte dos ensaios, mas sua curiosidade se abre também para a prosa de ficção, as artes plásticas e outras linguagens, quase sempre em sua interconexão com a literatura. Os poetas estudados cobrem largo espectro, desde os consagrados Manoel de Barros ou Haroldo de Campos, até jovens autores estreantes. E todos são tratados com o mesmo respeito e atenção: nem os mais velhos são incensados por serem mais velhos, nem os mais novos (jamais rotulados de “promissores” ou outro clichê semelhante) são encarados com benevolência. O que interessa ao crítico, pois é o que vai interessar ao seu leitor, é detectar, em cada caso, aquele quid revelador de uma singularidade, ainda que isto implique reconsiderar o já assentado ou enfrentar as dúvidas inerentes ao ainda não conhecido. A preferência de Manoel Ricardo de Lima, na verdade, é pela literatura que abrigue alguma forte inquietação, um forte sentimento de espanto diante do mundo.

A aliciante linguagem coloquial (na origem, esses textos circularam no jornal O Povo, de Fortaleza) não tem nada de concessão à comunicação imediata: o coloquialismo, aí, convive harmoniosamente com o mais requintado refinamento teórico, passando ao leitor a certeza de que os juízos exarados assentam sobre matéria submetida a densa e intensa reflexão, que prefere ficar nos bastidores, assumindo a forma da conversação descontraída. É que, para o autor, como para uns tantos críticos e teóricos, pensar uma obra implica necessariamente repensar a arte literária em geral. Daí o título, preciso: é uma tarefa que se refaz, no caso, 55 vezes.

Para isso, Manoel conta com sólida formação acadêmica (é mestre e doutor em teoria literária e leciona na Universidade Federal de Santa Catarina), mas não faz alarde, limitando-se a juntar, no mesmo trabalho, o melhor de dois mundos: a envolvente comunicabilidade do crítico que, no jornal diário, “conversa” com o leitor, e a consistente severidade do pesquisador afeito à exigência e ao rigor da investigação universitária.

Sai ganhando a literatura brasileira, com esta prova inconteste de maturidade intelectual; sai ganhando o leitor, que seguirá garimpando, à vontade, nos meandros das bibliotecas e livrarias de sua preferência, sabendo que dispõe, se assim o desejar, do auxílio prestimoso de um bom crítico; sai ganhando a instituição universitária, a UFSC, que pode contar, em seus quadros, com um escritor do porte de Manoel Ricardo de Lima.

*Poeta, crítico literário, autor de obras infanto-juvenis e tradutor. Lecionou na USP e na Universidade da Califórnia, em Berkeley

[17:09] - 02/01/2009 -  RSS