Leandro Souto Maior , Jornal do Brasil
RIO - O conjunto de eventos culturais que o Jornal do Brasil promoveu em 2008 abrangeu todas as áreas artísticas. Da exposição sobre a bossa nova na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, ao festival de música BdeBanda, passando pela instalação de espaço próprio para exposições e encontros nas feiras literárias de Paraty e Porto de Galinhas, o jornal firmou seu compromisso histórico com o entretenimento e a cultura ano passado. Um dever a ser renovado ao longo de 2009.
Em 9 de setembro, a exposição 50 years of bossa nova (patrocinada pela Bradesco Seguros e Previdência com apoio da Casa Brasil) reuniu fotos do Centro de Pesquisa e Documentação do Jornal do Brasil (CPDoc) em grandes painéis com registros de alguns dos momentos mais emblemáticos do movimento musical brasileiro – além de reproduções de capas de discos e de reportagens da época, selecionadas por Álvaro Costa e Silva, editor do caderno Ideias e Livros do Jornal do Brasil. Só na abertura mais de 3 mil pessoas passaram pela mostra em Nova York.
– O lugar é o mais apropriado para uma exposição como esta – declarou, na época, o embaixador Piragibe dos Santos Tarrago, representante permanente do Brasil nas Nações Unidas.
– Se a bossa nova fosse tocada com mais freqüência aqui na ONU, talvez tivéssemos mais paz no mundo.
Cerca de 200 mil pessoas circularam entre os painéis bossa-novistas durante 10 dias. Até o secretário-geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon, que não costuma comparecer a eventos como este por questões de segurança, fez questão de conferir de perto a história do ritmo brasileiro mais conhecido internacionalmente.
O secretário-geral disse que conheceu a bossa nova quando ainda era estudante em Seul.
– Aquela música invocava um país mágico, alegre e amigo, que me fazia sonhar. Era difícil encontrar LPs da bossa nova em Seul, mas sempre havia um soldado americano disposto a revender um exemplar para nós – recordou o secretário-geral.
A exposição apresentava aos visitantes os pilares da bossa nova, de Dorival Caymmi a Ary Barroso; situava o contexto histórico de 1958 – ano em que o Brasil foi campeão do mundo na Suécia e Brasília foi construída; entrava na intimidade do apartamento de Nara Leão e do Beco das Garrafas; destrinchava as personalidades dos grandes nomes do gênero, como João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes; e ia até as gerações posteriores, de Marcos Valle e Edu Lobo e, mais além, destacando artistas atuais relacionados com o movimento, como Bossacucanova e Fernanda Takai.
Em novembro, uma versão da mostra foi para Estocolmo, na Suécia, com estréia marcada por show de Elza Soares, que se recuperava de um acidente de carro poucos dias antes.
A cantora não esmoreceu e realizou apresentação brilhante, além de conferir a exposição, que ganhou título estendido, 50 years of bossa nova – Cup'n bossa.
A presença de Elza em Estocolmo teve caráter emblemático, já que foi na Suécia que os dribles de Mané Garrincha, com quem viveu por 16 anos, foram admirados mundialmente pela primeira vez, durante a Copa do Mundo de 1958.
– Acho que não só o Pelé seja rei, mas o Mané também – comparou a cantora.
– Aqui, na Suécia, isso é reconhecido. Na exposição do Jornal do Brasil fiquei emocionada, não ao ver a minha foto, mas a da Nara Leão. Eu estou aqui e, infelizmente, a Nara não.
Olho nos jovens
A terceira edição do BdeBanda, o concurso de bandas do Jornal do Brasil, também marcou 2008. Durante seis semanas, jovens músicos e seus fãs agitaram a boate Melt, no Leblon, e lotaram o Teatro Odisséia, na Lapa (no mesmo dia em que Madonna se apresentava no Maracanã), para a grande final.
Foram mais de 300 bandas inscritas no festival, que consagrou o grupo Ganeshas. Com a vitória, o grupo assinou contrato de lançamento de disco digital com a gravadora Deckdisc e carimbou o passaporte para o Mada, festival em Natal, uma das principais vitrines para novos talentos no Brasil.
Jomardo Jomas, um dos organizadores do evento no Rio Grande do Norte, adianta que a parceria está garantida este ano:
– É muito bom para o Mada receber um grupo escolhido democraticamente por jurados qualificados e também pelo publico. O festival está muito feliz com a parceria com o Jornal do Brasil. Certamente vamos fazer muitas coisas juntos este ano.
De olho na exposição que o evento em Natal vai proporcionar ao grupo, os integrantes do Ganeshas já estão se preparando para a apresentação, em agosto.
– Vamos fazer um repertório especial para a ocasião – adianta o guitarrista Bruno Corrêa.
– Graças ao BdeBanda, 2009 começa promissor. Além do show no Mada e do disco pela Deckdisc, vamos lançar nosso primeiro clipe. O principal é pensar em fazer uma boa apresentação.
Centro da cultura na Flip e Fliporto
Em 2008, o Jornal do Brasil fez a diferença na sexta edição da badalada Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), organizada em julho reunindo mais de 20 mil pessoas na charmosa cidade histórica. A Casa Jornal do Brasil – espaço especialmente destinado a encontros e exposições do rico acervo fotográfico do jornal – foi montada pela primeira vez no encontro literário, recebendo cerca de 5 mil pessoas.
Em novembro, a estrutura foi para Porto de Galinhas, e marcou presença na quarta edição da Fliporto, no paradisíaco balneário pernambucano.
Em Paraty, a Casa Jornal do Brasil recebeu autores como a chef Flávia Quaresma, a jornalista Ana Maria Bahiana, a atriz Maitê Proença, o economista Gustavo Franco e o escritor Luiz Antonio Aguiar – que lançou o Almanaque Machado de Assis e deu uma aula sobre o Bruxo do Cosme Velho, grande homenageado desta edição da Flip.
Sobre seu romance preferido, Dom Casmurro, Aguiar não resistiu:
– Babo de inveja por um escritor que consegue manter a história no cume, do início ao fim. A dúvida a respeito da traição, que populariza tanto a obra, se mantém 100 anos depois de sua morte. Isso é genial.
Machado também foi tema do encontro com o economista Gustavo Franco, autor do livro A economia em Machado de Assis, reunindo crônicas temáticas do escritor.
– Machado fala sobre o assunto como um cidadão comum. Tinha um personagem recorrente, o 'acionista', que discutia temas como a inflação e impostos – contou o ex-presidente do Banco Central.
O espaço do Jornal do Brasil também homenageou o escritor brasileiro, com exposição e exibição do filme O Rio de Machado de Assis, dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1965.
A casa também presenteou os visitantes com uma avant-premier da mostra 50 years of bossa nova, que iria para Nova York em setembro.
O cirurgião plástico Ivo Pitanguy proporcionou um momento único.
Enquanto apreciava as mostras, não se conteve e bateu um papo sobre estética e literatura com o público presente.
– A beleza aqui é feita de várias camadas, a beleza aqui está por toda parte, mas ainda mais a fundo – filosofou o imortal.
A beleza a qual Pitanguy se referia, das mulheres e da cidade, estava “ainda mais celebrada em uma festa de letras”, diria em seguida. Destaque ainda para o premiado José Luís Peixoto, principal nome da nova geração de escritores portugueses.
A Casa Jornal do Brasil também esteve presente na edição 2008 da Fliporto, a feira literária de Porto de Galinhas, a 60 km do Recife, que recebeu cerca de 17 mil pessoas. Novamente as exposições da bossa nova e de Machado de Assis promovidas pelo espaço do Jornal do Brasil fizeram a diferença com mais uma série de debates.
Diálogos com a África
O tema da Fliporto foi Trilhas da diáspora. Literatura em África e América Latina, com o objetivo de promover o diálogo da literatura brasileira e de países americanos e africanos. O balneário foi um antigo porto de escravos. Na abertura da feira, durante período agitado da campanha presidencial de Barack Obama para a presidência dos EUA, Ariano Suassuna deu uma declaração que recebeu entusiasmados aplausos.
– Espero que ele se lembre de que a Amazônia é brasileira. E que aproxime um pouco mais o povo negro americano.
Na Casa Jornal do Brasil, quatro escritores – o americano Quincy Troup, o guineense Tony Tcheca, o moçambicano Luís Carlos Patraquim e o inglês Patrick Chabal – debateram a idéia de que “Mãe África” é uma metáfora inventada pelas elites africanas para servir ao próprio discurso colonizador. O espaço ainda foi palco do lançamento do livro O enigma vazio, de Affonso Romano de Sant'Ana.
[23:00] - 01/01/2009 -
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