Portal Terra
TERRA - A mais recente tentativa de "reviver" John Lennon está numa campanha de doação de laptops para crianças carentes, disponível no YouTube. Segundo esclareceu meu irmão Permínio, não são laptops comuns. O XO, The Children's Machine, conhecido como Laptop de 100 dólares ou Laptop das crianças, é um projeto de inclusão digital desenvolvido pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Consiste em um projeto educacional para a criação de um notebook barato, para difundir o conhecimento e novas tecnologias a todas as crianças do mundo.
Quanto ao anúncio propriamente dito, confesso que fiquei arrepiado diante do que vi e ouvi, pois lá está a voz de Lennon falando de coisas que não existiam quando ainda era vivo. A fala, portanto, foi sintetizada, fabricada, sampleada. No final do filme, aparece a imagem do próprio, sincronizada com a fala, o que pode elevar o nível de comoção. Num futuro próximo, quase presente, a minha perplexidade terá virado peça de museu, e até o impacto provocado por esse tipo de procedimento, que será algo bem corriqueiro.
Yoko Ono, a viúva, autorizou o uso da imagem, que é para uma boa causa. Fora esse tipo de consideração, imagino, sem trocadilhos, se John concordaria com o uso da sua imagem e voz póstumas, procedimento semelhante ao usado pelos outros Beatles, quando acrescentaram seus instrumentos e vozes a uma gravação inédita de Lennon, para o lançamento da série Anthology, na década de 1990, também autorizada por Yoko. Nada tão radical quanto o exemplo da campanha atual, de colocar na boca de um morto o que não havia sido dito antes pelo mesmo.
Em uma de suas últimas entrevistas, no caso à Playboy, Lennon declarou: "Não gosto do culto da morte, de um James Dean morto, de um John Wayne morto. Eu cultuo as pessoas que sobrevivem. Gloria Swanson, Greta Garbo. Estão dizendo aí que John Wayne desafiou o câncer - que lutou contra ele como um verdadeiro homem. Sinto muito que ele tenha morrido, mas ele não lutou contra o câncer; o câncer é que lutou contra ele".
O fato é que, obviamente, os mortos não têm nada dizer a respeito deste e de outros assuntos. O que fica de quem morreu, além da obra, é o que deles fazem os que permaneceram vivos. Quando Lennon se foi, em 1980, ainda se vivia a era do disco de vinil, não havia Internet, e não se previa o que seria possível fazer com os equipamentos digitais. O mais irônico de tudo é que ele, um dos artistas que mais questionou a condição do mito - "I don´t believe in Beatles" etc -, talvez até por isso, após ter sido assassinado, teve essa condição elevada à máxima potência.
Pra se ter a idéia da extensão do culto, conto pros leitores o que me disse Javier Alfaya: num dos últimos redutos comunistas do mundo, Cuba, onde pretensamente se está livre das influências do rock e afins, o próprio governo mandou erguer uma estátua de John Lennon, vinte anos após sua morte. Sabemos que John militou por várias causas da esquerda norte-americana, foi perseguido pelo FBI, e até tentaram expulsá-lo dos Estados Unidos, onde morou até morrer.
Mas havia algo de ingênuo na sua militância política, e ele mesmo fez a auto-crítica, na já citada entrevista à Playboy: "Se você é da classe de onde eu venho, ou se torna um troglodita de direita, ou se torna um socialista por instinto, como eu era. Quer dizer: eu achava que as pessoas tinham o direito de ganhar suas dentaduras e ter sua saúde bem cuidada, e todo o resto. Fora isso, eu trabalhava para ganhar dinheiro, e queria ser rico".
Há ainda um detalhe final, a não ser negligenciado: como os óculos da estátua são de verdade, e eram, vez por outra, roubados, há sentinelas permanentes no local, unicamente pra vigiar o monumento, ou mais especificamente, apenas os óculos.
Por Paquito, músico e produtor.
[11:25] - 01/01/2009 -
RSS