Ubirajara Loureiro, Jornal do Brasil
RIO - Em plena crise do sistema econômico mundial, uma nova bomba está para estourar, dando aspectos mais dramáticos a uma situação já considerada grave: o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos, a soma dos bens e serviços produzidos no país no quarto trimestre de 2008 deverá registrar queda de, no mínimo 5%, o que vai consagrar uma grande recessão na primeira economia do mundo.
A informação é do economista Antonio Carlos Lemgruber, presidente do Banco Central do Brasil em 1985, presidente e sócio do extinto Banco Liberal, em associação com o Bank of America, PhD pela Universidade de Virginia (EUA), hoje consultor econômico e colaborador do famoso blog RGE Monitor, do economista Nouriel Roubini, um dos poucos a prever a dimensão da atual crise financeira mundial desde 2006. Os dados sobre a queda do PIB, segundo Lemgruber, já circulam nos círculos mais bem informados dos EUA.
– As estimativas são de que se registre, no mínimo, uma queda de 5%, podendo chegar a menos 6%. Este número, já em 2008, no mínimo consagra uma grande recessão. A dúvida é que, a partir desses 5% negativos, podemos ter vários cenários, todos ruins. Sobre isto, os economistas até brincam que podemos ter uma recessão em V, em U ou em L. Ou seja: uma queda abrupta, seguida de recuperação rápida, no trimestre seguinte. No cenário em U, haverá a queda, com permanência dessa situação durante algum tempo, e depois, a recuperação. Mas a expectativa mais provável, infelizmente, é de um L, com uma estabilização nos patamares lá em baixo – diz Lemgruber.
A caracterização de uma depressão, entretanto, só viria com a repetição desse quadro pelo menos por mais dois trimestres, o que, de acordo com o ex-presidente do banco central, não é uma hipótese a ser descartada. Seria algo semelhante ao que ocorreu na década dos anos 30 do século passado.
Deflação e depressão
– Não há como escapar desses sintomas terríveis que já estão definidos, de crescimento negativo já no quarto trimestre e continuidade desse quadro pelo menos no primeiro semestre de 2009. É uma questão estatística: se, numa hipótese favorável houver crescimento zero no primeiro trimestre e zero no segundo, somados a este menos cinco, logo em seguida virá outro número negativo. Com os dados de expansão monetária, e até de uma desvalorização da moeda, não digo provocada, mas negligenciada, provavelmente vão originar deflação, talvez não dramática, mas pelo menos por um certo período isto vai ocorrer – explica Lemgruber.
O economista se diz impressionado com a conduta de Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, que, segundo ele, estaria agindo estritamente em função do diagnóstico da crise elaborado pelo economista Milton Friedman, um dos papas do liberalismo econômico consagrado pela escola de Chicago e Nobel de Economia em 1976. Friedmann, na análise da crise mundial pós 1929, concluiu que o grande erro da época foi não ter havido uma emissão monetária pesada.
Lemgruber entende que a estratégia adotada pelo Federal Reserve desperta atenção para o fato, não muito divulgado, de que a base monetária (volume de dinheiro na economia) triplicou nos EUA em um ano, passando de US$ 700 bilhões para US$ 2 trilhões.
– Os europeus, especialmente os alemães, estão achando que isto lá na frente vai dar problema. Só que o Bernanke não está preocupado com isto. Continua fazendo o que o pessoal chama de “jogar dinheiro de helicóptero,” comprando grande quantidade de títulos. Mas, até agora, como a economia está numa armadilha de liquidez, este dinheiro está indo para debaixo dos colchões e para os cofres dos bancos. Assim, a única solução para o Federal Reserve é fazer mais do mesmo. Ou seja, continuar jogando dinheiro de helicóptero, até a coisa dar certo, evitando o pior, que seria uma situação de deflação, desemprego e depressão - diz Lemgruber.
Quadro para o Brasil
Para Lemgruber, quanto ao Brasil, ninguém tem dúvida que em termos de crescimento de inflação, 2009 vai ser maior do que 2008.
– Temos que reconhecer que dificilmente teremos uma situação de crescimento negativo no ano que vem. O pior que pode acontecer é, em vez de a inflação ficar em 6%, dar 7 ou 8%. O que também não é nada de dramático, mas não tenho dúvida que teremos mais inflação e mais desemprego – prevê Lemgruber, complementando, em seguida:
– Mesmo que aqui isto não venha a ser tão terrível como nos EUA e em outras economias, do ponto de vista político gera situação complicada, que não acontece desde o início do primeiro governo Lula, um ano feio em matéria de inflação e desemprego. Mas temos que minimizar isto ao compararmos nossa situação com a dos EUA, por exemplo.
[23:02] - 31/12/2008 -
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