Raphael Bruno, Jornal do Brasil
BRASÍLIA - Um dos setores da sociedade que mais sofreu com o cerceamento de liberdades institucionalizado pelo AI-5 foi a imprensa. A partir da promulgação do ato, o cerco aos veículos de comunicação, que já era real, se aprofundou a níveis ostensivos. O JB relembrou, com alguns dos jornalistas que, em maior ou menor intensidade, vivenciaram aquele período e foram marcados por ele, as impressões, os impactos, as histórias e as interpretações formuladas por estes profissionais na tentativa de lidar com aquele que viria a se consolidar como um dos períodos mais sombrios da história política moderna brasileira.
Afinal, como diria o famoso poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare, "lembrar é fácil para quem tem memória. Esquecer é difícil para quem tem coração".
Um clima diferente no ar
Carlos Heitor Cony – Em 1968 estava em Cuba. Estava lá desde 1967. Não me exilaram mas eu fui para lá. Voltei pouco antes do ato, em novembro. Fui preso logo na minha chegada, passei dois ou três dias sob jurisdição dos militares. Era esse o clima.
Villas-Boas Corrêa – O ato vinha sendo armado há um bom tempo. Havia uma articulação forte dos militares linha-dura. O Costa e Silva acabou cedendo, utilizando como pretexto aquele discurso do Márcio (Moreira Alves). Eu era assessor do então Ministro das Relações Exteriores Magalhães Pinto. Naquela época, ele estava tentando utilizar o ministério para articular uma candidatura à Presidência. Imaginava que, naquela altura, se conseguíssemos colocar um civil na Presidência, ao invés de um general, já seria um avanço. Mas eu sentia o cheiro de algo no ar. Sentia que o esquema do Magalhães estava indo por água abaixo, mas não tinha certeza do que era, apenas que estava sendo articulado.
Mauro Santayana – O AI-5 estava dentro de um contexto continental, mundial, de guerra fria. De uma política agressiva dos Estados Unidos de promoção de seus interesses. Tenho a impressão de que Costa e Silva realmente estava negociando, conversando com as pessoas, tentando articular a abertura do regime. Mas por trás dele estava a linha-dura, e principalmente todo um planejamento dos Estados Unidos para a América Latina. Tanto é que depois de 1968 viriam os golpes na Argentina e no Chile, todos articulados em conjunto pelos norte-americanos.
Janio de Freitas – Nos meses anteriores ao AI-5, estava organizando a publicação de uma revista semanal, junto com figuras como Washington Novaes, José Augusto Ribeiro. Uma revista, claro, que manteria uma linha crítica em relação ao regime. Com a edição do ato, vimos que não havia a menor condição de continuarmos com o projeto. Tenho certeza que Costa e Silva realmente pretendeu encontrar uma fórmula para uma nova Constituição que reestabelecesse vários dos direitos democráticos perdidos. Mas houve uma reação da extrema-direita civil articulada com o grupo da linha-dura militar.
Evandro Teixeira – Naquela época era credenciado no Palácio das Laranjeiras. O Costa e Silva era uma figura caricata, beirando o cômico, apesar de toda dureza do regime. O clima já era um tanto quanto tenso, rígido. No comitê de imprensa, éramos obrigados a prestar continência à bandeira toda hora do toque. Os jornalistas paravam de escrever em suas máquinas e levantavam para prestar continência.
Na derrota, o aprendizado forjado pela resistência
Carlos Heitor Cony – A lição que ficou clara é que quando há qualquer tentativa de subverter a ordem jurídica do país a reação tem que ser imediata. A sociedade brasileira não entendeu isso em 1964 e deu no que deu em 1968. Pelo contrário, em sua maioria, ela o apoiou. Isso me chateou bastante. Mas não guardei mágoa do período. Segui em frente.
Mauro Santayana – A lição que ficou foi a de que 1968 e o AI-5 foram tão resultado de articulações dos interesses dos Estados Unidos quanto 1964 havia sido.
Janio de Freitas – Participei de tudo que pude e achei correto naquela época e não me arrependo de nada. A lição que fica, observando os desdobramentos do AI-5, é que contra uma ditadura militar temos mesmo que jogar tudo que temos contra ela.
Evandro Teixeira – A lição é que nós perdemos muito naquele período, mas lutamos e aprendemos muito também. E a fotografia teve um papel especial nisso, na medida em que fez sua parte no registro daqueles momentos históricos.
[01:31] - 13/12/2008 -
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