Luciana Abade, Jornal do Brasil
BRASÍLIA - "A melhor coisa do mundo". Essa é a definição de liberdade para um grupo de alunos do ensino médio do Centro Educacional do Lago Norte, em Brasília. Ditadura militar e censura nas artes e nos meios de comunicação parecem, na verdade, bem mais distantes do que estão, 40 anos.
Fazer o que quiser e, principalmente, ouvir a música que quiser "é tipo tudo". Para esses estudantes, os anos de chumbo que a juventude brasileira viveu entre 1968 e 1985 são, simplesmente, "impossíveis de imaginar". Esses mesmos alunos, no entanto, acusam, na terceira pessoa, os jovens de hoje de serem apolíticos. Mas não têm dúvidas: todos se uniriam para derrubar qualquer nova tentativa de governantes de cercear a liberdade de expressão.
– Acho que ainda falta mais consciência política para os jovens de hoje, o que não quer dizer que não tenham – pondera a estudante Lidiane Maria de Souza, 17 anos. – A invasão da reitoria da UnB (Universidade de Brasília) para tirar o reitor acusado de corrupção é uma prova de que sabemos reagir.
Já a estudante Thais Maia, 17 anos, acredita que se a juventude brasileira realmente tivesse mobilização política, o desfecho do mensalão, esquema de compra de votos da base aliada, seria outro porque os acusados já teriam sido punidos. Garante, no entanto, que qualquer tentativa de uma nova ditadura a levaria a ir para as ruas protestar.
– Eu não ia aceitar isso não. Eu ia para a rua quebrar tudo. Ia recrutar todo o mundo. É importante você poder se expressar e, se não gostar do governo, ir lá e fazer uma música sobre isso.
A música, aliás, parece ser o único elo de ligação dessa turma com a ditadura militar. As letras metafóricas de Chico Buarque, Geraldo Vandré e Gilberto Gil são citadas por todos como símbolos daquela época. E, a possibilidade de não poder ouvir e se expressar por meio do funk e do hip-hop, parece ser o maior temor.
Para o professor de história Lourenço Dutra, 44 anos, a juventude é, de fato, apolítica e não consegue perceber a presença do fator político nos mínimos atos do dia-a-dia. Além de não ter a mínima noção do que foi a ditadura.
– Por mais que você fale é muito irreal para eles. Falta foco para o jovem, sonho e vontade de mudar – acredita Lourenço. – Parte desse comportamento é culpa da mídia que ajuda a glamourizar tudo, que banaliza a violência. As coisas são passadas de uma forma que você não consegue mais sentir a dor de quem leva o tiro.
O professor acredita que o modelo de escola do Brasil, que não estimula a reflexão e insiste em usar métodos engessados de ensino contribui para a alienação dos alunos. Acredita, entretanto, que a causa ambiental ainda vai mobilizar os jovens não só do Brasil, mas do mundo inteiro. Nem tanto por consciência política, mas por questão de sobrevivência.
O movimento estudantil rechaça o título de juventude alienada. E garante que a fama injusta é criada por uma parcela da sociedade que não consegue compreender a nova forma de exercer política fora da vida partidária institucional.
– Vivemos outra conjectura. Não precisamos resistir às Forças Armadas – argumenta Lúcia Stumpf, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). – Nosso inimigo agora é outro. É a violência, o desemprego, a falta de saúde. E nossa juventude é tão indignada quanto a de antigamente e tem lutado para mudar esse quadro. A realização da primeira conferência nacional da Juventude, realizada em abril, é uma prova.
[01:31] - 13/12/2008 -
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