Jornal do Brasil
RIO - Enfim, o aguardado ato
Carlos Heitor Cony– No dia 13, ouvi a notícia da edição do AI-5 pelo rádio, mas não imaginei que aquilo pudesse ter algo a ver comigo. À noite fui para o cinema com minha namorada e acabei preso. Fomos abordados no carro por um major. Me levaram, umas 11h da noite, com um pano preto na cabeça para que não percebesse para onde estava indo. Só descobri quando tiraram o pano e na parede estava escrito "a guarda morre mas não se rende", então deduzi que estava no Batalhão da Guarda em São Cristóvão. Felizmente, não fui torturado nem maltratado. Naquela época, o aparato repressivo ainda não estava no auge. Senti até um constrangimento dos militares. Só tive que ser submetido a uma série de interrogatórios inúteis. Mesmo assim, minha família ficou sem nem saber onde eu estava por 15 dias. Só depois permitiram visitas.
Villas-Boas Corrêa – Na manhã do dia 13 o Magalhães saiu apressado do ministério. No fim da tarde, ele me chamou. Estava reunido, com todo aquele aparato fúnebre, com todos seus principais funcionários, apenas me esperando. Pediu minha opinião sobre o ato. Deixei claro que, embora provavelmente ele já estivesse com a opinião formada, era meu entendimento de que um homem com a biografia dele não podia se envolver e apoiar aquilo. Ele me disse que eu era o único amigo dele que tinha o aconselhado contra o ato. Mas que amigos também... aquilo criou uma situação constrangedora, horrível. Mas a cabeça do homem já estava formada.
Mauro Santayana – Estava em Praga (então Tchecoslováquia), trabalhando como correspondente do JB por lá. Estava num jantar com outros correspondentes e escritores no Hotel Carlton. Conversámos, entre outras coisas, sobre a situação política brasileira. Foi uma reação desproporcional e sem sentido ao discurso do Márcio. Aquilo foi só um pretexto, evidentemente.
Janio de Freitas – No dia, a promulgação do ato não chegou a ser algo tão surpreendente. Mas sem dúvida o processo político se acelerou de maneira muito intensa, embora perfeitamente perceptível, naqueles dias.
Evandro Teixeira – Estava no Palácio das Laranjeiras. As tropas militares cercaram o edifício e eu fui para fora do comitê fotografar a assinatura do ato. Logo em seguida, o documento foi lido por um locutor.
A difícil adaptação ao pesadelo
Carlos Heitor Cony – Depois que fui preso no dia do AI-5, só seria solto em janeiro. Mas logo em fevereiro, no carnaval, já seria preso de novo. Me acusaram de estar envolvido em um protesto contra o regime que sairia numa escola de samba. Senti que o clima já era outro. Já foram muitos mais rígidos. Quando fui solto, tive que trabalhar com livros infantis adaptações de clássicos. Júlio Verne, Mark Twain. Depois auxiliei o Juscelino (Kubitschek) com as memórias dele. Foram sete anos trabalhando nisso, mas o livro, embora não tenha sido censurado, foi proibido de ter qualquer divulgação. Então foi um livro semi-clandestino. E isso porque o JK já havia se auto-censurado, e as memória dele paravam na época em que ele ainda era prefeito. Ainda assim, creio que 1964 causou mais impacto em mim do que 1968. Minha casa foi destruída, três oficiais da Marinha tentaram seqüestrar minhas filhas, as ameaçaram de estupro com palavras de baixo calão. Um negócio horrível.
Villas-Boas Corrêa – Depois do ato, não fiquei por muito mais tempo no ministério. Fui lá uma ou vez ou outra e acabei saindo, acho que depois de um mês. Fui para o Estado de São Paulo, que adotou uma linha de não se auto-censurar. Publicávamos “Os Lusíadas”, de Camões. A obra completa saiu 32 vezes. Apelávamos para receitas culinárias também. Como era repórter, outra grande dificuldades minha, com todo aquele fechamento político e com toda censura, era encontrar fontes. O que me salvou foi que consegui construir um bom relacionamento com o Delfim Netto (então ministro da Fazenda). Me encontrava com ele para um almoço semanal e era isso que me salvava alguma informação.
Janio de Freitas – Minha vida mudou radicalmente após o AI-5. Não encontrava emprego em lugar nenhum, fui trabalhar com produção gráfica.
Evandro Teixeira – Até 1968, a situação estava mais ou menos branda. Mas com toda a movimentação dos estudantes e finalmente o AI-5 mudou tudo. O JB tinha militares na redação quase todo o dia. Algo que se tornou rotina depois disto. Era comum um pelotão de fuzileiros navais entrar na Rádio JB para fechá-la. E o jornal era muito visado, era alvo preferencial.
[01:31] - 13/12/2008 -
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